Zona de Escape:
Lembro com clareza daqueles dias.
O cinto estalava no ar como um chicote.
Eu não chorava. Já tinha aprendido que chorar só piorava tudo.
Minha mãe assistia da porta.
Não fazia nada.
Nunca fazia.
Depois da surra, ele tirava minha roupa...
Aquilo...
Maldito.
Desgraçado.
Nunca vou perdoá-lo.
Minha mãe também era maltratada por aquele verme. Mesmo assim, ainda defendia o canalha e justificava o que ele fazia comigo e com ela.
Uma verdadeira vadia.
Cansado da situação, fugi de casa. Conheci algumas pessoas na rua e sobrevivíamos roubando. Um dia, o líder do grupo foi morto por um policial. Nos separamos.
Foi nessa época que encontrei uma banda de garagem. Viramos grandes amigos. Eu cantava bem — muito bem. Um dia, estouramos. Fama da noite para o dia. Várias gravadoras nos queriam. Fechamos contrato com uma.
Dali em diante, foi só sucesso: álbuns, turnês, dinheiro. Mas... as sombras do passado me perseguiam todos os dias. Comecei a usar drogas. Muitas drogas. No começo, aliviavam. A mente ficava leve, o corpo flutuava. Mas depois... nada mais fazia efeito. Estava enlouquecendo, dia após dia.
Até que o dono da gravadora me ligou. Disse que queria falar comigo pessoalmente. Fui até lá.
Ele afirmou que conhecia algo capaz de aliviar minha dor. Eu ri na cara dele. Disse que já havia experimentado de tudo, e que nada mais surtia efeito. Ele deu uma risada, meio impressionado, e comentou que era incrível eu ainda estar vivo. Que nunca tinha visto alguém usar tanto e continuar de pé.
Então, me entregou um cartão e falou sério:
— Vá a este endereço, neste horário. Leve este cartão. Confie.
Não entendi absolutamente nada, mas... já não tinha mais nada a perder. Fui.
Cheguei ao local: era uma igreja. No meio do mato. Dei meia-volta na mesma hora. Pensei: "esse imbecil acha que religião vai me salvar? Estou fora."
Mas então... ouvi uma voz me chamando. Uma voz diferente, brilhante, entende?
Voltei.
Bati na porta. O homem atrás dela perguntou a senha. Que porra de senha? Lembrei-me do cartão. Entreguei. Ele me deixou entrar. Parecia um culto comum, mas me levou a uma câmara subterrânea, e fiquei chocado.
Lá dentro... havia pessoas famosas. Empresários, políticos, artistas... Parecia uma festa. No meio do nada. Achei estranho, mas ignorei. Entrei no clima.
Até que... trouxeram as crianças.
Completamente nuas. Com coleiras no pescoço. Acorrentadas.
Eu travei.
— Que porra é essa?!
As memórias me atingiram como um soco. Revivi meu passado. Tentei sacudir a cabeça e ignorar.
O dono da gravadora apareceu. Disse que fazia parte do espetáculo. Eu explodi:
— São crianças, caralho! Vocês estão loucos?!
Dois brutamontes me agarraram. Gritei, dizendo que iria destruir todos eles. Foi quando um homem apareceu. Vestia uma roupa longa, como um padre macabro. Ele perguntou:
— É esse o especial?
O dono da gravadora confirmou.
Duas crianças se aproximaram, segurando uma almofada. Sobre ela... repousava uma mão. Aquilo me enojou. Era uma mão pálida, mais branca que qualquer coisa que eu já tinha visto. E na palma... havia um olho vermelho como sangue. Um olho real.
O "padre" pegou a mão.
Ela era gelada.
Não… gelada não.
Morta.
O olho na palma se moveu.
E me olhou.
Meu corpo parou de responder.
Ela se aproximou lentamente do meu rosto.
Eu queria apenas correr.
Eu queria apenas gritar.
Mas algo dentro de mim… queria aquilo, mesmo sabendo que não devia.
E então... a mão agarrou meu rosto.
Eles me soltaram.
No instinto, tentei arrancar aquela coisa horrenda da minha face.
Mas então...
Aconteceu. Aquilo... TUDO.
Não há como explicar.
Senti tudo ao mesmo tempo. Vida, morte, alegria, dor, amor, ódio, prazer, medo... TUDO.
O padre removeu a mão do meu rosto. Eu estava em transe. Permaneci na festa até desmaiar.
Acordei no dia seguinte em casa. Liguei desesperado para o dono da gravadora:
—Aquilo... é a minha salvação. Preciso de mais! Mais!
Ele disse que, para continuar, eu teria que entrar na seita. A tal "Mão da Iluminação", o "Olho Que Tudo Satisfaz", não sei ao certo.
Fiz tudo o que pediram. Não me importava mais com as crianças. Não me importava com nada. Só queria aquilo. Aquela sensação.
Usei a mão todos os dias. Era divino. Melhor que qualquer droga.
Mas, como tudo na minha vida, foi perdendo o efeito.
Dessa vez, a abstinência me atingiu com força.
As vozes começaram. As visões também. Todo o meu passado veio me consumir. Eu me via, criança, no lugar daquelas crianças acorrentadas. Não sei se era imaginação ou realidade.
Espanquei minha esposa e minha pequena filha, achando que eram minha mãe. Briguei com os companheiros de banda.
Perdi tudo.
Mesmo assim... permitiam que eu frequentasse o templo.
Até que um dia, ouvi:
— Você poderia ter sido o receptáculo perfeito... mas é apenas mais uma falha.
E me expulsaram.
Filhos da puta.
Mas eu PRECISO daquela mão. EU PRECISO!
Tudo o que vejo agora... meu Deus... as crianças... minha mulher... minha filha inocente... meus amigos...
O que eu fiz?! O que eu fiz?!
Cem dias sem usar a mão do olho. Estou em uma clínica. Aquele maldito dono da gravadora me internou aqui. Todos me tratam como louco. Ninguém acredita em mim. Nada ajuda.
As vozes continuam. Ordenam que eu mate.
Mate.
Mate...
Nade no sangue deles. Beba de seus crânios. E então... traga a criança até mim... traga... Torne-se parte de nós... venha até nós... seja nós... seja eu... eu... EUUUUUUU!
Esta carta é perturbadora. Quem diria que ele acabaria assim?
Investigamos tudo o que ele relatou. Não encontramos nada — pelo menos, era no que eu queria acreditar.
Mas... havia algo estranho. Parecia que alguém de alto escalão queria que esse caso fosse esquecido. Sumiram com provas, bloquearam documentos, afastaram investigadores...
No fim, o homem foi encontrado nu, com os pulsos cortados... bebendo o próprio sangue.
Em seu quarto, desenhado com sangue na parede…
havia o símbolo de uma mão.
E, no centro da palma, havia um corpo infantil nu.
No lugar da cabeça, havia um olho.
E, ao redor da mão, formando um círculo, havia corpos mutilados.
De suas cabeças, o sangue escorria para o centro.
Para onde estava o olho.
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