Leão, o Governador:
Capítulo 4:
Foi noticiado que o Pato Assassino morreu. Sua morte saiu em todos os jornais. O povo comemorava nas ruas, com o céu nublado — não por nuvens, mas pela fumaça das grandes fábricas.
A morte daquele que acreditavam ser o maior criminoso de todos trouxe uma falsa esperança: talvez, enfim, o povo pudesse ter justiça.
Davi, o Leão Dourado, fazia uma festa em um salão luxuoso. Convidou vários políticos, empresários, banqueiros, juízes, promotores, jornalistas, artistas, líderes religiosos e até a alta cúpula militar. Mas, antes de chegar à festa, discursou em frente à delegacia, câmeras apontadas para ele:
— Essa foi uma operação muito perigosa. Sacrificamos muitos homens bons, que lutaram até o fim contra um mal maior, mas suas mortes não foram em vão. Enfim, eliminamos aquele que representava o maior perigo para a sociedade: um assassino sanguinário que matava a sangue frio. Finalmente, a era do maior assassino caiu por terra... ou devo dizer, no mar. (risos) Esse é um grande passo para acabarmos com a criminalidade em nosso país. Nenhum criminoso passará impune em meu mandato.
Todos que ali estavam começaram a bater palmas. As pessoas nas ruas, emocionadas ao verem as palavras do governador no telão, gritavam seu nome como se fosse um salvador.
Davi entrou em seu carro. O motorista era Samuel, um mico-leão, que disse de forma debochada:
— Aonde vamos agora, chefe?
Davi riu:
— Não seja idiota. Você sabe que vamos à festa. Vamos comemorar com todos. Enfim, eliminamos aquele desgraçado. Agora nada ficará em nosso caminho.
Ao chegarem ao grande salão, Davi e Samuel foram bem recebidos. Assim que entraram, todos levantaram suas taças e disseram:
— Viva o grande Davi, o Leão Dourado, nosso herói!
Depois de toda a cortesia, Davi agradeceu. Ele se aproximou de um homem alto: um boi branco de idade avançada, com grandes chifres, cabelo penteado para o lado direito, usando um terno preto com gravata verde e amarela e um sobretudo amarelo por cima.
Davi massageou suas costas, passou à frente dele e falou:
— Há quanto tempo! Você sumiu, só falávamos por telefone. Fico feliz que tenha vindo, até porque preciso falar com você pessoalmente.
O boi branco engoliu seco, tomou um gole de vinho, ainda sentindo medo, e disse:
— Senhor, quero que saiba que sempre fiz tudo por você, sempre fiz tudo pelo sistema. Me desculpe caso eu tenha feito algo...
Davi o interrompeu com risos:
— Desculpa? Deixa eu ver... você queria implantar um golpe no momento em que perdeu a reeleição e está sendo condenado por isso. E, como se não bastasse, fez todo aquele teatro para que o país da maior potência militar interviesse aqui em meu território, só para salvar sua pele da cadeia. Ou seja: você queria se tornar o rei, sentar no trono, tomar meu lugar. Mas lembre-se: nesta selva só existe um rei.
Ele continuou:
— Não se preocupe. Você foi muito útil. Conseguiu aprovar muitas leis que beneficiaram todo o sistema, graças à sua popularidade. E ainda foi mais adorado nas igrejas do que aquele Deus falso deles. Obrigado por trazer os templos religiosos até nós. Como agradecimento, você será condenado à cadeia. Não se preocupe: ficará em uma cela separada, com todo o luxo que possa imaginar.
O boi branco tentou questionar:
— Por favor, você não pode fazer isso comigo, o povo me ama!
Davi colocou a mão em seu ombro, fechou os olhos com um sorriso assustador no rosto e falou, de forma calma e arrepiante:
— Ficará na cadeia por 30 anos. Lá terá bastante tempo para pensar em nunca mais tentar brincar de rei, em nunca mais tentar roubar meu trono.
Ele abriu os olhos, furioso:
— E se tentar me trair novamente, darei a você e à sua família um presente nada agradável!
Logo depois, Davi se aproximou de outro homem. Ele era gordo, grande e velho — um jumento com uma longa barba branca, em formato de tentáculo de lula, e um pouco calvo. Vestia um terno preto, com um sobretudo e uma gravata vermelha.
Davi deu um forte aperto de mão e, com um sorriso falso, disse:
— Lembra por que tirei você da cadeia? O outro estava me dando trabalho demais. Ele não queria ser apenas mais uma engrenagem do sistema, mas a engrenagem principal que move todas as outras. Por isso, precisávamos de você novamente. O motivo de eu gostar tanto de você é que você sabe jogar o jogo… só que é muito burro. Por isso ficou preso por um tempo: não conseguiu sumir com as evidências antes de ser pego. É óbvio que eu poderia ter tirado você de lá antes, mas digamos que esse foi o seu castigo, para aprender a usar melhor a cabeça.
O jumento ia tomar um gole após as palavras de Davi, mas ele tomou a bebida de sua mão e, em seguida, continuou:
— Chega de beber, já bebeu demais. Depois da festa quero que me parabenize na frente de todos. Diga que eliminei o Pato Assassino, dê todo o crédito a mim. Espero que faça um ótimo discurso, Presidente.
O jumento velho (presidente do país), com medo, respondeu:
— Senhor, não faz sentido eu fazer isso; meu personagem te odeia.
Davi tomou um gole da bebida que pegou dele e, com um olhar despreocupado, falou:
— Sim, mas esse é o jogo. O povo verá que você está tentando ganhar moeda política em cima do meu “feito” e, então, vou dar uma réplica logo em seguida. Algo como: “Quando me tornar o presidente, você será o próximo, voltará de onde nunca devia ter saído.” Espero que não tenha nenhuma objeção.
O jumento velho se calou e aceitou o que foi pedido.
De repente, todas as telas do país ligaram diante da festa daqueles que controlavam tudo, assim como diante da festa do povo nas ruas. As telas falavam. Todo o esquema do mercado negro foi mostrado a todos, revelando o envolvimento daqueles que estavam acima. O povo estava chocado com todas aquelas provas e se perguntava se aquilo era verdade.
Samuel avisou Davi o que estava ocorrendo. Davi pegou seu celular e ficou enfurecido ao ver tudo aquilo. Todos que estavam ali começaram a receber inúmeras ligações de animais de hierarquia menor, envolvidos nos esquemas, querendo explicações — pois aquilo era um problema para todo o sistema.
Davi subiu ao palco e disse no microfone que iria resolver tudo. Enquanto isso, eles podiam continuar curtindo a festa. Ele e Samuel foram até o carro. Davi ligou para o delegado, que falou:
— Não conseguimos cortar o sinal. Eles hackearam todo o sistema de satélites que controlava as transmissões. De alguma forma, tiveram acesso a um dos computadores centrais de uma das emissoras — no caso, a TV G. Já enviamos todas as viaturas para lá.
Davi, com calma mas bastante nervoso, respondeu:
— Seu incompetente! Diga para eles não entrarem, eu cuidarei disso pessoalmente.
No caminho, Davi via o povo nas ruas, que antes festejava e agora assistia atentamente a tudo o que passava nas telas. Muitos estavam incrédulos. Enfurecido, ele ordenou:
— Acelere, Samuel!
Ao chegar, Davi viu uma frota de viaturas. Os policiais abriam caminho para ele passar. Ele entrou calmamente. Ao fechar a porta, caminhou e percebeu que todas as salas estavam vazias, até chegar ao corredor do computador central. Lá estavam todos os funcionários tentando abrir a porta, inclusive os guardas.
Davi falou enquanto caminhava lentamente, tirando seu sobretudo:
— São incompetentes, não conseguem abrir uma simples porta com vários móveis atrás… (risada maligna).
Seus olhos se arregalaram.
— O erro de vocês custará muito caro. A única forma de pagarem...
Suas garras ficaram afiadas. Ele aumentou a velocidade e começou a correr sobre as quatro patas. Então o massacre começou. Ossos se quebrando. Carne se rasgando. Gritos de dor e desespero ecoavam de forma agônica.
…
Silêncio.
O sangue escorreu lentamente para o outro lado da porta. Os móveis que estavam do lado oposto, impedindo-a de ser aberta, foram fatiados junto à porta em vários pedaços num instante, voando por todo o local.
Davi viu que não havia ninguém ali, apenas um pendrive conectado ao computador central. Ele o retirou, digitou o comando de reset para interromper a transmissão e, em seguida, apertou aquele maldito objeto na mão, destroçando-o.
No cômodo escuro e vazio, com várias estruturas de madeira nas paredes e no teto, três animais corriam.
A mulher, uma raposa de sobretudo, falou em desespero:
— Vocês ouviram?! Nunca ouvi tantos gritos tão dilacerantes daquele jeito. Seja o que for que passou por aquela porta, não é um animal comum. Com certeza é um animal aprimorado... mas isso é impossível, já que eles ficam em bases secretas do governo, e a mais próxima daqui está a uns mil quilômetros de distância.
O tucano, ao lado, também apavorado, respondeu:
— Já ouvi falar dessa teoria da conspiração. Dizem que os animais aprimorados possuem superpoderes, armas de guerra perfeitas… mas isso é só uma teoria, né? Só loucos acreditam nisso, certo?
De repente, ouviram passos. Todos pararam. Então, uma voz surgiu da escuridão:
— Foram vocês os responsáveis?!
Tiros foram disparados. O terceiro animal, um gato, atirava sem parar na direção da voz. O cheiro de pólvora se espalhava pelo ar e, das sombras, ele surgiu. As balas, amassadas, caíam de seu corpo, fazendo um barulho agudo ao tocar o chão — seu corpo parecia mais duro que aço.
Então, a raposa falou em pânico:
— Balas comuns não funcionam nesses monstros! O único jeito de ferir seres aprimorados é com balas especiais, feitas de uma propriedade oposta às suas peculiaridades.
Sem tempo para qualquer reação, Davi avançou em alta velocidade. Arranhou o gato com brutalidade, lançando-o para longe em meio a jorros de sangue e deixando-o inconsciente. Em seguida, agarrou a raposa, Ellen, pelo pescoço.
— Aquele que joguei para longe parece ser um detetive. E esse outro, ao seu lado, é o jornalista a quem ensinei uma lição. Mas parece que não aprendeu nada com a minha última visita. O que quero dizer é que nenhum deles conseguiria hackear todo o sistema de transmissão, contaminando até o satélite. Ou seja: você é a maldita hacker. Sempre suspeitamos que o Pato Assassino trabalhava com alguém com essas habilidades. Tínhamos certeza de que se tratava de alguém infiltrado na polícia. Se soubesse quantos oficiais e funcionários da instituição eu matei em sigilo por sua causa... (risos). Não sei todos os detalhes sobre você, pois acabamos de nos conhecer, mas, por estar trabalhando com um detetive, significa que tinha acesso ao banco de dados da polícia, como suspeitávamos. E, mesmo assim, nunca conseguimos encontrá-la. Um feito impressionante, seguido de outro igualmente notável... Você devia estar trabalhando para nós, mas sua insolência não terá perdão.
Ele sorriu de forma diabólica, um sorriso enorme de orelha a orelha:
— Vou adorar brincar com você... ou melhor, todo o sistema vai adorar brincar com você.
Ellen começava a desmaiar, tentando se soltar, lágrimas escorrendo ao ouvir seu terrível destino.
O tucano, chamado Fernando, estava paralisado de medo, caído no chão, ao ver Davi como um ser aprimorado — algo que ele pensava ser apenas uma teoria da conspiração. Ver Davi, mais uma vez, torturando alguém diante de seus olhos trouxe-lhe lembranças dolorosas. Lembrou-se de sua sobrinha, dos momentos bons que passou com ela e do instante em que a perdeu. Lágrimas desceram pelo seu rosto.
Em um momento de coragem tola, talvez movido por culpa de não ter conseguido salvá-la, levantou-se e se atirou contra Davi, usando o impulso do salto para, com o impacto do seu enorme bico, colidir com toda a força na barriga do leão. O choque o empurrou um pouco, o suficiente para fazê-lo largar Ellen, que caiu no chão tossindo e recuperando o fôlego. Enquanto ela o observava, viu Fernando segurar o inimigo com lágrimas nos olhos, e então ele gritou:
— Fuja, fuja daqui!!!
Mas Davi desferiu um golpe brutal, partindo o bico de Fernando e fazendo-o largar pela força da pancada.
O tucano caía — e, naquele instante, o tempo pareceu se mover em câmera lenta. Lágrimas escorriam de seus olhos quando Davi cravou a mão em seu peito; o som de seus batimentos era audível, pulsando em desespero.
Fernando sentiu os dedos dele agarrando seu coração. Sabia que morreria ali mesmo.
Antes que seus olhos se fechassem, uma última lembrança o atravessou — viu sua sobrinha brincando com o pai e a mãe, sorrindo como se nada de ruim existisse no mundo. Uma última lágrima rolou por seu rosto.
Então Davi arrancou-lhe o coração e o ergueu para o alto, enquanto o corpo de Fernando desabava no chão sem vida.
Ellen correu até ele, chorando desesperada, mas já era tarde demais.
Fernando havia morrido.
Davi segurava o coração erguido, espremendo-o e bebendo o sangue. Mas, em meio ao desespero, um som seco ecoou — madeira polida batendo contra a parede, como um cajado tocando o topo ao lado. Com a audição aguçada, Davi ouviu. Antes que pudesse virar o rosto, uma bala atingiu seu braço erguido como o disparo de um canhão, arrancando-o por completo.
Davi gritou de dor e olhou na direção de onde o disparo viera. No alto, sobre uma estrutura de madeira, alguém o encarava. Era aquele que deveria estar morto.
A raposa e o leão não acreditavam no que viam. O leão sentia pavor, medo puro. A raposa sentia esperança.
Era ele: o lendário Pato Assassino, agora com um novo visual. Alguns fios de cabelo espetados cobriam sua cabeça; os óculos eram menores; o sobretudo, um pouco diferente, mas mantendo a mesma cor — o azul habitual que era sua marca característica — estava aberto; o peito, coberto de ataduras. No lugar do braço direito, havia um braço mecânico. E, claro, o que não podia faltar: o cigarro na boca.
Ele sorriu e disse:
— Achou que eu ficaria fora da festa?
Ellen caiu em lágrimas ao vê-lo vivo, sorrindo de felicidade. Furioso, o leão gritou:
— Seu maldito! Como ainda está vivo?!
O Pato Assassino, com a bengala em uma mão e a arma na outra, caiu na risada e respondeu:
— Achou mesmo que aquela explosão seria suficiente para me matar? — então falou, em tom sério. — Eu também achei que seria… mas, enquanto eu não matar cada um de vocês, não terei permissão para morrer.
Davi, tomado pela raiva, sabia que o pato já havia invadido várias bases secretas e roubado munições especiais contra animais aprimorados. Afinal, tinham enviado muitos para matá-lo — e todos haviam falhado.
O leão sorriu, olhando para cima, e disse:
— Se quiser um trabalho bem-feito, faça você mesmo.
Moveu-se em altíssima velocidade, ricocheteando pelo ambiente como uma bola de pinball. Suas patas, ao tocarem as superfícies sólidas, produziam estalos altos por todo o cômodo. Ellen não conseguia acompanhar seus movimentos.
Em um instante, atacou o pato com o braço restante — mas o perdeu no mesmo momento. O Pato disparava rápido demais; seu instinto era letal.
Após o ataque, Davi se apoiou na parede atrás do pato. Pensou em se lançar em alta velocidade na direção dele e despedaçá-lo. Mas, antes que fizesse qualquer movimento, viu o pato olhando diretamente para ele, com o cano da arma surgindo por trás do sobretudo azul. Uma forte luz verde brilhava dentro do cano.
Davi sabia: se ele atirasse daquela distância, seu corpo explodiria em vários pedaços.
Apavorado, tentou fugir. Saltou em direção ao chão, mas deu as costas ao inimigo. Em milésimos de segundo, ainda no ar, ouviram-se dois disparos. Logo em seguida, perdeu as duas pernas, caindo com violência no chão.
Agora, sem braços e pernas, Davi começou a gritar por ajuda. Os policiais do lado de fora ouviram e tentaram entrar, mas foram atingidos por gases do sono que encobriram os andares inferiores, derrubando todos.
Davi, com sua audição aprimorada, ouvia todos caírem no chão e então berrou, ao ver sua última esperança desabando:
— Seu desgraçado! Eu juro que farei você sofrer para sempre! Eu não descansarei até destruí-lo por completo!
O Pato Assassino desceu calmamente, caminhou até ele, subiu em seu corpo e puxou o cabo da bengala, revelando uma lâmina como uma espada. Pegou uma das balas especiais e a espremeu, deixando escorrer um líquido verde sobre a lâmina. Sorriu e disse:
— Antes de vir aqui, passei na sua festinha. Todos os grandes estavam lá, comemorando a minha morte. Adivinha? Matei todos! Queimei tudo até virar cinzas. Mas, antes, perguntei quem era o chefe por trás de tudo. E sabe o que me disseram? Que era você, Davi, o governador, o Leão Dourado... Antes de te matar, farei você sofrer, seu desgraçado! Sonhei com esse momento a vida toda! (risos malignos).
O Pato Assassino arrancou os olhos de Davi, depois a língua e todos os dentes, um a um. Esfolou-o vivo e jogou uma substância ácida sobre o corpo, que queimava e ardia na carne exposta. Davi agonizava e chorava, mas o pato subiu sobre ele novamente, apagou o cigarro na carne deformada, apontou a arma para a cabeça dele e disse:
— Agora, continue seu sofrimento no inferno!
E atirou, matando-o.
Algumas horas depois, o gato detetive, chamado Gustavo, acordou. Estava no topo de um prédio, com ataduras cobrindo quase todo o tronco. Ao lado, um lençol cobria um corpo. Ele deu uma espiada e viu que era Fernando. Abaixou a cabeça, tirou o chapéu e o colocou sobre o peito — condolências, talvez àquele que poderia ter se tornado um grande amigo. Mas, logo em seguida, olhou para frente e viu Ellen conversando com alguém. Ao prestar atenção, percebeu algo impossível: o Pato estava vivo.
Então entendeu como ele sobrevivera. Porém, notou também que estavam em outro prédio, completamente abandonado, velho e caindo aos pedaços. Lá embaixo, havia fumaça, gritos e coisas sendo quebradas. Levantou-se, foi até a beirada e viu o povo brigando entre si, destruindo tudo. O exército tentava conter a situação, já que a polícia estava completamente desacordada.
O Pato Assassino subiu na platibanda e falou:
— Esse é o resultado de quando se mostra a verdade. O povo se divide entre os que acreditam e os que se recusam a aceitá-la, e assim o caos explode. Os dois lados se unem contra aqueles que a aceitaram. No fim, o sistema não acabou — e não vai acabar — enquanto existirem animais a serem manipulados, alimentando-o de forma direta ou indireta. Eles não entendem que o mundo é mais complexo do que parece. Nem tudo é preto no branco: há inúmeros tons de cinza, várias camadas em cada ideal. Mas preferem se dividir em lados e defendê-los com unhas e dentes, enquanto abominam completamente tudo do outro lado, como se fosse o mal absoluto apenas por pertencer ao lado oposto. Sempre terão uma visão limitada diante da complexidade das coisas.
Essa luta vai além da política, além do crime organizado, além do próprio sistema. Essa batalha também é cultural. O povo está doente, intoxicado por toda essa lavagem cerebral. Ao mesmo tempo em que muitos clamam por justiça e penas severas contra criminosos, protegem e idolatram os verdadeiros cabeças por trás de tudo, aqueles que constantemente blindam os criminosos, tanto de alto quanto de baixo escalão. Os que despertam tornam-se alvo de ambos os lados simplesmente por não pertencerem a nenhum “grupo” e por criticarem ambos os lados. E, ainda assim, tentam se encaixar em um deles, alegando que os outros não os representam da forma correta e que eles são a verdadeira representação daquele lado — e logo em seguida seguem e idolatram outra figura... No fim, o ciclo sempre se repetirá. Esse é o verdadeiro poder por trás de tudo: dividir, enganar, manipular — tudo para conquistar e fazer o que quiser.
Gustavo, o gato detetive, perguntou:
— Então o que sugere?
O Pato Assassino respondeu:
— Não sei. Sou apenas um assassino. Essa parte deixo para você resolver.
Gustavo apontou a arma para ele e disse:
— Levante as mãos, você está...
De repente, o pato disparou rapidamente, desarmando-o, e disse, enquanto se jogava do prédio:
— Não se preocupe, detetive. Quando eu acabar com todos os criminosos, matarei o último que falta...
Ele colocou a arma na própria cabeça e disse:
— Eu!
Enquanto caía, prendeu a bengala em uma das janelas dos andares inferiores, evitando a queda. Entrou no prédio logo em seguida.
Pouco depois, uma moto saltou pela rua em meio ao caos. Ele vestia outro sobretudo, de cor diferente, para que ninguém o reconhecesse, e pilotava como se não houvesse amanhã.
Gustavo percebeu que Ellen também havia sumido.
Estava sozinho no alto do prédio.
Mais tarde, Gustavo levou o corpo de Fernando até a residência do falecido e o colocou no sofá. Uma lágrima escorreu por seu rosto, e ele disse:
— Desculpe-me. Sinto que sua morte foi em vão. Eu pensava que o povo acordaria, se revoltaria, abriria finalmente os olhos e, assim, poderíamos lutar contra eles de igual para igual, com a força da pressão popular. Mas o problema é muito mais complexo. Se eu soubesse que isso aconteceria, jamais teria envolvido você nisso. Espero que tenha se reencontrado com sua sobrinha.
Ele pegou um dos cachimbos de Fernando, acendeu e tragou lentamente.
Em seguida, abriu a porta e foi embora, fechando-a atrás de si.
No fim, o problema era muito mais profundo do que parecia. Talvez, quando todos enfim despertarem e deixarem de idolatrar políticos, ídolos ou qualquer figura, parando de reduzir questões sérias a lados opostos, só então consigam arrancar o mal pela raiz, em vez de apenas aparar as pontas. E, quem sabe, o país possa se tornar um pouco melhor.
A morte daquele que acreditavam ser o maior criminoso de todos trouxe uma falsa esperança: talvez, enfim, o povo pudesse ter justiça.
Davi, o Leão Dourado, fazia uma festa em um salão luxuoso. Convidou vários políticos, empresários, banqueiros, juízes, promotores, jornalistas, artistas, líderes religiosos e até a alta cúpula militar. Mas, antes de chegar à festa, discursou em frente à delegacia, câmeras apontadas para ele:
— Essa foi uma operação muito perigosa. Sacrificamos muitos homens bons, que lutaram até o fim contra um mal maior, mas suas mortes não foram em vão. Enfim, eliminamos aquele que representava o maior perigo para a sociedade: um assassino sanguinário que matava a sangue frio. Finalmente, a era do maior assassino caiu por terra... ou devo dizer, no mar. (risos) Esse é um grande passo para acabarmos com a criminalidade em nosso país. Nenhum criminoso passará impune em meu mandato.
Todos que ali estavam começaram a bater palmas. As pessoas nas ruas, emocionadas ao verem as palavras do governador no telão, gritavam seu nome como se fosse um salvador.
Davi entrou em seu carro. O motorista era Samuel, um mico-leão, que disse de forma debochada:
— Aonde vamos agora, chefe?
Davi riu:
— Não seja idiota. Você sabe que vamos à festa. Vamos comemorar com todos. Enfim, eliminamos aquele desgraçado. Agora nada ficará em nosso caminho.
Ao chegarem ao grande salão, Davi e Samuel foram bem recebidos. Assim que entraram, todos levantaram suas taças e disseram:
— Viva o grande Davi, o Leão Dourado, nosso herói!
Depois de toda a cortesia, Davi agradeceu. Ele se aproximou de um homem alto: um boi branco de idade avançada, com grandes chifres, cabelo penteado para o lado direito, usando um terno preto com gravata verde e amarela e um sobretudo amarelo por cima.
Davi massageou suas costas, passou à frente dele e falou:
— Há quanto tempo! Você sumiu, só falávamos por telefone. Fico feliz que tenha vindo, até porque preciso falar com você pessoalmente.
O boi branco engoliu seco, tomou um gole de vinho, ainda sentindo medo, e disse:
— Senhor, quero que saiba que sempre fiz tudo por você, sempre fiz tudo pelo sistema. Me desculpe caso eu tenha feito algo...
Davi o interrompeu com risos:
— Desculpa? Deixa eu ver... você queria implantar um golpe no momento em que perdeu a reeleição e está sendo condenado por isso. E, como se não bastasse, fez todo aquele teatro para que o país da maior potência militar interviesse aqui em meu território, só para salvar sua pele da cadeia. Ou seja: você queria se tornar o rei, sentar no trono, tomar meu lugar. Mas lembre-se: nesta selva só existe um rei.
Ele continuou:
— Não se preocupe. Você foi muito útil. Conseguiu aprovar muitas leis que beneficiaram todo o sistema, graças à sua popularidade. E ainda foi mais adorado nas igrejas do que aquele Deus falso deles. Obrigado por trazer os templos religiosos até nós. Como agradecimento, você será condenado à cadeia. Não se preocupe: ficará em uma cela separada, com todo o luxo que possa imaginar.
O boi branco tentou questionar:
— Por favor, você não pode fazer isso comigo, o povo me ama!
Davi colocou a mão em seu ombro, fechou os olhos com um sorriso assustador no rosto e falou, de forma calma e arrepiante:
— Ficará na cadeia por 30 anos. Lá terá bastante tempo para pensar em nunca mais tentar brincar de rei, em nunca mais tentar roubar meu trono.
Ele abriu os olhos, furioso:
— E se tentar me trair novamente, darei a você e à sua família um presente nada agradável!
Logo depois, Davi se aproximou de outro homem. Ele era gordo, grande e velho — um jumento com uma longa barba branca, em formato de tentáculo de lula, e um pouco calvo. Vestia um terno preto, com um sobretudo e uma gravata vermelha.
Davi deu um forte aperto de mão e, com um sorriso falso, disse:
— Lembra por que tirei você da cadeia? O outro estava me dando trabalho demais. Ele não queria ser apenas mais uma engrenagem do sistema, mas a engrenagem principal que move todas as outras. Por isso, precisávamos de você novamente. O motivo de eu gostar tanto de você é que você sabe jogar o jogo… só que é muito burro. Por isso ficou preso por um tempo: não conseguiu sumir com as evidências antes de ser pego. É óbvio que eu poderia ter tirado você de lá antes, mas digamos que esse foi o seu castigo, para aprender a usar melhor a cabeça.
O jumento ia tomar um gole após as palavras de Davi, mas ele tomou a bebida de sua mão e, em seguida, continuou:
— Chega de beber, já bebeu demais. Depois da festa quero que me parabenize na frente de todos. Diga que eliminei o Pato Assassino, dê todo o crédito a mim. Espero que faça um ótimo discurso, Presidente.
O jumento velho (presidente do país), com medo, respondeu:
— Senhor, não faz sentido eu fazer isso; meu personagem te odeia.
Davi tomou um gole da bebida que pegou dele e, com um olhar despreocupado, falou:
— Sim, mas esse é o jogo. O povo verá que você está tentando ganhar moeda política em cima do meu “feito” e, então, vou dar uma réplica logo em seguida. Algo como: “Quando me tornar o presidente, você será o próximo, voltará de onde nunca devia ter saído.” Espero que não tenha nenhuma objeção.
O jumento velho se calou e aceitou o que foi pedido.
De repente, todas as telas do país ligaram diante da festa daqueles que controlavam tudo, assim como diante da festa do povo nas ruas. As telas falavam. Todo o esquema do mercado negro foi mostrado a todos, revelando o envolvimento daqueles que estavam acima. O povo estava chocado com todas aquelas provas e se perguntava se aquilo era verdade.
Samuel avisou Davi o que estava ocorrendo. Davi pegou seu celular e ficou enfurecido ao ver tudo aquilo. Todos que estavam ali começaram a receber inúmeras ligações de animais de hierarquia menor, envolvidos nos esquemas, querendo explicações — pois aquilo era um problema para todo o sistema.
Davi subiu ao palco e disse no microfone que iria resolver tudo. Enquanto isso, eles podiam continuar curtindo a festa. Ele e Samuel foram até o carro. Davi ligou para o delegado, que falou:
— Não conseguimos cortar o sinal. Eles hackearam todo o sistema de satélites que controlava as transmissões. De alguma forma, tiveram acesso a um dos computadores centrais de uma das emissoras — no caso, a TV G. Já enviamos todas as viaturas para lá.
Davi, com calma mas bastante nervoso, respondeu:
— Seu incompetente! Diga para eles não entrarem, eu cuidarei disso pessoalmente.
No caminho, Davi via o povo nas ruas, que antes festejava e agora assistia atentamente a tudo o que passava nas telas. Muitos estavam incrédulos. Enfurecido, ele ordenou:
— Acelere, Samuel!
Ao chegar, Davi viu uma frota de viaturas. Os policiais abriam caminho para ele passar. Ele entrou calmamente. Ao fechar a porta, caminhou e percebeu que todas as salas estavam vazias, até chegar ao corredor do computador central. Lá estavam todos os funcionários tentando abrir a porta, inclusive os guardas.
Davi falou enquanto caminhava lentamente, tirando seu sobretudo:
— São incompetentes, não conseguem abrir uma simples porta com vários móveis atrás… (risada maligna).
Seus olhos se arregalaram.
— O erro de vocês custará muito caro. A única forma de pagarem...
Suas garras ficaram afiadas. Ele aumentou a velocidade e começou a correr sobre as quatro patas. Então o massacre começou. Ossos se quebrando. Carne se rasgando. Gritos de dor e desespero ecoavam de forma agônica.
…
Silêncio.
O sangue escorreu lentamente para o outro lado da porta. Os móveis que estavam do lado oposto, impedindo-a de ser aberta, foram fatiados junto à porta em vários pedaços num instante, voando por todo o local.
Davi viu que não havia ninguém ali, apenas um pendrive conectado ao computador central. Ele o retirou, digitou o comando de reset para interromper a transmissão e, em seguida, apertou aquele maldito objeto na mão, destroçando-o.
No cômodo escuro e vazio, com várias estruturas de madeira nas paredes e no teto, três animais corriam.
A mulher, uma raposa de sobretudo, falou em desespero:
— Vocês ouviram?! Nunca ouvi tantos gritos tão dilacerantes daquele jeito. Seja o que for que passou por aquela porta, não é um animal comum. Com certeza é um animal aprimorado... mas isso é impossível, já que eles ficam em bases secretas do governo, e a mais próxima daqui está a uns mil quilômetros de distância.
O tucano, ao lado, também apavorado, respondeu:
— Já ouvi falar dessa teoria da conspiração. Dizem que os animais aprimorados possuem superpoderes, armas de guerra perfeitas… mas isso é só uma teoria, né? Só loucos acreditam nisso, certo?
De repente, ouviram passos. Todos pararam. Então, uma voz surgiu da escuridão:
— Foram vocês os responsáveis?!
Tiros foram disparados. O terceiro animal, um gato, atirava sem parar na direção da voz. O cheiro de pólvora se espalhava pelo ar e, das sombras, ele surgiu. As balas, amassadas, caíam de seu corpo, fazendo um barulho agudo ao tocar o chão — seu corpo parecia mais duro que aço.
Então, a raposa falou em pânico:
— Balas comuns não funcionam nesses monstros! O único jeito de ferir seres aprimorados é com balas especiais, feitas de uma propriedade oposta às suas peculiaridades.
Sem tempo para qualquer reação, Davi avançou em alta velocidade. Arranhou o gato com brutalidade, lançando-o para longe em meio a jorros de sangue e deixando-o inconsciente. Em seguida, agarrou a raposa, Ellen, pelo pescoço.
— Aquele que joguei para longe parece ser um detetive. E esse outro, ao seu lado, é o jornalista a quem ensinei uma lição. Mas parece que não aprendeu nada com a minha última visita. O que quero dizer é que nenhum deles conseguiria hackear todo o sistema de transmissão, contaminando até o satélite. Ou seja: você é a maldita hacker. Sempre suspeitamos que o Pato Assassino trabalhava com alguém com essas habilidades. Tínhamos certeza de que se tratava de alguém infiltrado na polícia. Se soubesse quantos oficiais e funcionários da instituição eu matei em sigilo por sua causa... (risos). Não sei todos os detalhes sobre você, pois acabamos de nos conhecer, mas, por estar trabalhando com um detetive, significa que tinha acesso ao banco de dados da polícia, como suspeitávamos. E, mesmo assim, nunca conseguimos encontrá-la. Um feito impressionante, seguido de outro igualmente notável... Você devia estar trabalhando para nós, mas sua insolência não terá perdão.
Ele sorriu de forma diabólica, um sorriso enorme de orelha a orelha:
— Vou adorar brincar com você... ou melhor, todo o sistema vai adorar brincar com você.
Ellen começava a desmaiar, tentando se soltar, lágrimas escorrendo ao ouvir seu terrível destino.
O tucano, chamado Fernando, estava paralisado de medo, caído no chão, ao ver Davi como um ser aprimorado — algo que ele pensava ser apenas uma teoria da conspiração. Ver Davi, mais uma vez, torturando alguém diante de seus olhos trouxe-lhe lembranças dolorosas. Lembrou-se de sua sobrinha, dos momentos bons que passou com ela e do instante em que a perdeu. Lágrimas desceram pelo seu rosto.
Em um momento de coragem tola, talvez movido por culpa de não ter conseguido salvá-la, levantou-se e se atirou contra Davi, usando o impulso do salto para, com o impacto do seu enorme bico, colidir com toda a força na barriga do leão. O choque o empurrou um pouco, o suficiente para fazê-lo largar Ellen, que caiu no chão tossindo e recuperando o fôlego. Enquanto ela o observava, viu Fernando segurar o inimigo com lágrimas nos olhos, e então ele gritou:
— Fuja, fuja daqui!!!
Mas Davi desferiu um golpe brutal, partindo o bico de Fernando e fazendo-o largar pela força da pancada.
O tucano caía — e, naquele instante, o tempo pareceu se mover em câmera lenta. Lágrimas escorriam de seus olhos quando Davi cravou a mão em seu peito; o som de seus batimentos era audível, pulsando em desespero.
Fernando sentiu os dedos dele agarrando seu coração. Sabia que morreria ali mesmo.
Antes que seus olhos se fechassem, uma última lembrança o atravessou — viu sua sobrinha brincando com o pai e a mãe, sorrindo como se nada de ruim existisse no mundo. Uma última lágrima rolou por seu rosto.
Então Davi arrancou-lhe o coração e o ergueu para o alto, enquanto o corpo de Fernando desabava no chão sem vida.
Ellen correu até ele, chorando desesperada, mas já era tarde demais.
Fernando havia morrido.
Davi segurava o coração erguido, espremendo-o e bebendo o sangue. Mas, em meio ao desespero, um som seco ecoou — madeira polida batendo contra a parede, como um cajado tocando o topo ao lado. Com a audição aguçada, Davi ouviu. Antes que pudesse virar o rosto, uma bala atingiu seu braço erguido como o disparo de um canhão, arrancando-o por completo.
Davi gritou de dor e olhou na direção de onde o disparo viera. No alto, sobre uma estrutura de madeira, alguém o encarava. Era aquele que deveria estar morto.
A raposa e o leão não acreditavam no que viam. O leão sentia pavor, medo puro. A raposa sentia esperança.
Era ele: o lendário Pato Assassino, agora com um novo visual. Alguns fios de cabelo espetados cobriam sua cabeça; os óculos eram menores; o sobretudo, um pouco diferente, mas mantendo a mesma cor — o azul habitual que era sua marca característica — estava aberto; o peito, coberto de ataduras. No lugar do braço direito, havia um braço mecânico. E, claro, o que não podia faltar: o cigarro na boca.
Ele sorriu e disse:
— Achou que eu ficaria fora da festa?
Ellen caiu em lágrimas ao vê-lo vivo, sorrindo de felicidade. Furioso, o leão gritou:
— Seu maldito! Como ainda está vivo?!
O Pato Assassino, com a bengala em uma mão e a arma na outra, caiu na risada e respondeu:
— Achou mesmo que aquela explosão seria suficiente para me matar? — então falou, em tom sério. — Eu também achei que seria… mas, enquanto eu não matar cada um de vocês, não terei permissão para morrer.
Davi, tomado pela raiva, sabia que o pato já havia invadido várias bases secretas e roubado munições especiais contra animais aprimorados. Afinal, tinham enviado muitos para matá-lo — e todos haviam falhado.
O leão sorriu, olhando para cima, e disse:
— Se quiser um trabalho bem-feito, faça você mesmo.
Moveu-se em altíssima velocidade, ricocheteando pelo ambiente como uma bola de pinball. Suas patas, ao tocarem as superfícies sólidas, produziam estalos altos por todo o cômodo. Ellen não conseguia acompanhar seus movimentos.
Em um instante, atacou o pato com o braço restante — mas o perdeu no mesmo momento. O Pato disparava rápido demais; seu instinto era letal.
Após o ataque, Davi se apoiou na parede atrás do pato. Pensou em se lançar em alta velocidade na direção dele e despedaçá-lo. Mas, antes que fizesse qualquer movimento, viu o pato olhando diretamente para ele, com o cano da arma surgindo por trás do sobretudo azul. Uma forte luz verde brilhava dentro do cano.
Davi sabia: se ele atirasse daquela distância, seu corpo explodiria em vários pedaços.
Apavorado, tentou fugir. Saltou em direção ao chão, mas deu as costas ao inimigo. Em milésimos de segundo, ainda no ar, ouviram-se dois disparos. Logo em seguida, perdeu as duas pernas, caindo com violência no chão.
Agora, sem braços e pernas, Davi começou a gritar por ajuda. Os policiais do lado de fora ouviram e tentaram entrar, mas foram atingidos por gases do sono que encobriram os andares inferiores, derrubando todos.
Davi, com sua audição aprimorada, ouvia todos caírem no chão e então berrou, ao ver sua última esperança desabando:
— Seu desgraçado! Eu juro que farei você sofrer para sempre! Eu não descansarei até destruí-lo por completo!
O Pato Assassino desceu calmamente, caminhou até ele, subiu em seu corpo e puxou o cabo da bengala, revelando uma lâmina como uma espada. Pegou uma das balas especiais e a espremeu, deixando escorrer um líquido verde sobre a lâmina. Sorriu e disse:
— Antes de vir aqui, passei na sua festinha. Todos os grandes estavam lá, comemorando a minha morte. Adivinha? Matei todos! Queimei tudo até virar cinzas. Mas, antes, perguntei quem era o chefe por trás de tudo. E sabe o que me disseram? Que era você, Davi, o governador, o Leão Dourado... Antes de te matar, farei você sofrer, seu desgraçado! Sonhei com esse momento a vida toda! (risos malignos).
O Pato Assassino arrancou os olhos de Davi, depois a língua e todos os dentes, um a um. Esfolou-o vivo e jogou uma substância ácida sobre o corpo, que queimava e ardia na carne exposta. Davi agonizava e chorava, mas o pato subiu sobre ele novamente, apagou o cigarro na carne deformada, apontou a arma para a cabeça dele e disse:
— Agora, continue seu sofrimento no inferno!
E atirou, matando-o.
Algumas horas depois, o gato detetive, chamado Gustavo, acordou. Estava no topo de um prédio, com ataduras cobrindo quase todo o tronco. Ao lado, um lençol cobria um corpo. Ele deu uma espiada e viu que era Fernando. Abaixou a cabeça, tirou o chapéu e o colocou sobre o peito — condolências, talvez àquele que poderia ter se tornado um grande amigo. Mas, logo em seguida, olhou para frente e viu Ellen conversando com alguém. Ao prestar atenção, percebeu algo impossível: o Pato estava vivo.
Então entendeu como ele sobrevivera. Porém, notou também que estavam em outro prédio, completamente abandonado, velho e caindo aos pedaços. Lá embaixo, havia fumaça, gritos e coisas sendo quebradas. Levantou-se, foi até a beirada e viu o povo brigando entre si, destruindo tudo. O exército tentava conter a situação, já que a polícia estava completamente desacordada.
O Pato Assassino subiu na platibanda e falou:
— Esse é o resultado de quando se mostra a verdade. O povo se divide entre os que acreditam e os que se recusam a aceitá-la, e assim o caos explode. Os dois lados se unem contra aqueles que a aceitaram. No fim, o sistema não acabou — e não vai acabar — enquanto existirem animais a serem manipulados, alimentando-o de forma direta ou indireta. Eles não entendem que o mundo é mais complexo do que parece. Nem tudo é preto no branco: há inúmeros tons de cinza, várias camadas em cada ideal. Mas preferem se dividir em lados e defendê-los com unhas e dentes, enquanto abominam completamente tudo do outro lado, como se fosse o mal absoluto apenas por pertencer ao lado oposto. Sempre terão uma visão limitada diante da complexidade das coisas.
Essa luta vai além da política, além do crime organizado, além do próprio sistema. Essa batalha também é cultural. O povo está doente, intoxicado por toda essa lavagem cerebral. Ao mesmo tempo em que muitos clamam por justiça e penas severas contra criminosos, protegem e idolatram os verdadeiros cabeças por trás de tudo, aqueles que constantemente blindam os criminosos, tanto de alto quanto de baixo escalão. Os que despertam tornam-se alvo de ambos os lados simplesmente por não pertencerem a nenhum “grupo” e por criticarem ambos os lados. E, ainda assim, tentam se encaixar em um deles, alegando que os outros não os representam da forma correta e que eles são a verdadeira representação daquele lado — e logo em seguida seguem e idolatram outra figura... No fim, o ciclo sempre se repetirá. Esse é o verdadeiro poder por trás de tudo: dividir, enganar, manipular — tudo para conquistar e fazer o que quiser.
Gustavo, o gato detetive, perguntou:
— Então o que sugere?
O Pato Assassino respondeu:
— Não sei. Sou apenas um assassino. Essa parte deixo para você resolver.
Gustavo apontou a arma para ele e disse:
— Levante as mãos, você está...
De repente, o pato disparou rapidamente, desarmando-o, e disse, enquanto se jogava do prédio:
— Não se preocupe, detetive. Quando eu acabar com todos os criminosos, matarei o último que falta...
Ele colocou a arma na própria cabeça e disse:
— Eu!
Enquanto caía, prendeu a bengala em uma das janelas dos andares inferiores, evitando a queda. Entrou no prédio logo em seguida.
Pouco depois, uma moto saltou pela rua em meio ao caos. Ele vestia outro sobretudo, de cor diferente, para que ninguém o reconhecesse, e pilotava como se não houvesse amanhã.
Gustavo percebeu que Ellen também havia sumido.
Estava sozinho no alto do prédio.
Mais tarde, Gustavo levou o corpo de Fernando até a residência do falecido e o colocou no sofá. Uma lágrima escorreu por seu rosto, e ele disse:
— Desculpe-me. Sinto que sua morte foi em vão. Eu pensava que o povo acordaria, se revoltaria, abriria finalmente os olhos e, assim, poderíamos lutar contra eles de igual para igual, com a força da pressão popular. Mas o problema é muito mais complexo. Se eu soubesse que isso aconteceria, jamais teria envolvido você nisso. Espero que tenha se reencontrado com sua sobrinha.
Ele pegou um dos cachimbos de Fernando, acendeu e tragou lentamente.
Em seguida, abriu a porta e foi embora, fechando-a atrás de si.
No fim, o problema era muito mais profundo do que parecia. Talvez, quando todos enfim despertarem e deixarem de idolatrar políticos, ídolos ou qualquer figura, parando de reduzir questões sérias a lados opostos, só então consigam arrancar o mal pela raiz, em vez de apenas aparar as pontas. E, quem sabe, o país possa se tornar um pouco melhor.
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