Tucano Jornalista:
Depois de concluir a faculdade de Jornalismo, Fernando conseguiu uma vaga como estagiário em um jornal local. Assim como na faculdade, uma das coisas que aprendeu foi que sempre deveria olhar e entender o lado do agressor, mostrando a versão dele e, muitas vezes, colocando a vítima como vilã. Afinal, diziam que os criminosos eram vítimas de uma sociedade opressora. Essa era a visão que Fernando absorveu.
Ele fazia seu trabalho com afinco, até que um dia seu chefe o parabenizou. O jornal fazia parte de uma companhia maior e, impressionado com seu desempenho, transferiu-o para a televisão.
Com o tempo, várias pessoas que compartilhavam da mesma linha de pensamento passaram a gostar cada vez mais dele, até que Fernando se tornou muito famoso no jornal televisivo.
Mas certo dia, quando tudo parecia estar dando certo, recebeu uma ligação: seu irmão e a cunhada haviam sido assaltados e mortos por criminosos. Ali, seu mundo desabou. Nunca imaginou que aqueles bandidos, pelos quais tantas vezes passara pano, seriam os mesmos que tirariam a vida de seu querido irmão.
Eles tinham uma filha pequena, e Fernando acabou ficando com a guarda da sobrinha, até porque ele era a única família que restou.
Depois desse incidente, abandonou a carreira de jornalista e deixou de acreditar em tudo o que lhe fora ensinado na faculdade.
Pouco tempo depois, um novo candidato à presidência começou a ganhar força. Ele representava o outro lado da política, já que, anteriormente, apenas um dos lados tinha chances reais de vencer.
Fazia críticas duras contra criminosos e políticos corruptos. Por isso, conquistava cada vez mais o povo, que estava cansado tanto dos bandidos pequenos (ladrões de celular, de bicicletas…) quanto dos bandidos grandes (políticos, empresários, banqueiros…).
Fernando passou a apoiá-lo e retornou ao jornalismo. Criou um portal de notícias independente, já que sabia que a grande mídia não aceitaria sua nova visão de mundo — desta vez, olhando para o lado da vítima, e não mais do agressor.
Seus antigos apoiadores sentiram-se traídos, mas ele logo conquistou um novo público.
Quando aquele candidato sobreviveu a uma tentativa de assassinato, apenas um mês antes da eleição, Fernando passou a acreditar que, de fato, ele seria capaz de combater o sistema. Afinal, se o sistema o queria morto, então ele era o cara certo.
O político venceu. Mas seus primeiros meses de governo foram uma decepção total. Não cumpriu a promessa de criar leis mais duras contra criminosos. Apenas fingia combater o sistema, enquanto o fortalecia ainda mais.
Nem mesmo os presidentes anteriores, do outro lado do espectro político, haviam tido tanto apoio popular para aprovar leis que, na prática, só beneficiavam criminosos e corruptos.
E tudo isso aconteceu porque o povo ainda acreditava que ele estava lutando contra o sistema, quando, na realidade, apenas o blindava. Agora, os políticos podiam roubar à vontade sem que nada lhes acontecesse — até porque o presidente havia acabado com a força-tarefa que combatia a corrupção política. O mesmo valia para os criminosos comuns.
Fernando então descobriu que o presidente se recusava a revelar informações sobre a investigação da tentativa de assassinato que havia sofrido. Tudo parecia conectado: a briga entre os dois lados sempre fora uma farsa, um grande teatro.
Sentiu-se traído, quebrado, triste e desolado. Parecia que o problema jamais teria solução. O povo idolatrava aqueles políticos como deuses, enxergando-os como salvadores — da mesma forma que ele mesmo já os havia visto.
Mas a verdade era dura: acreditar em qualquer um dos lados era pedir para ser manipulado e enganado constantemente. No fim, o sistema se fortalecia, cada vez mais complexo.
Fernando não parava de expor esquemas envolvendo o mercado negro e políticos de ambos os lados. Políticos de lados opostos brigavam em frente às câmeras, mas faziam acordos nos bastidores que os beneficiavam igualmente. A farsa estava escancarada.
O povo, cego e idólatra, passou a odiá-lo. Chamavam-no de mentiroso, mesmo diante de provas. Ainda assim, alguns apoiavam suas matérias, cansados de todo aquele teatro.
Quando ocorreu outra eleição, o antigo candidato — Um dos presidentes anteriores — voltou ao poder. Nesse momento, Fernando compreendeu que não havia mais esperança: o povo estava dividido entre dois lados que representavam a mesma moeda podre. Continuariam presos no ciclo de “tira aquele e coloca este”, até se cansarem e voltarem a eleger outros com os mesmos reflexos dos anteriores — afinal, as ideias apenas mudavam de rosto.
Esse político que retornara ao poder enganava a classe mais pobre; era, basicamente, um Robin Hood ao contrário — roubava dos pobres para dar aos ricos. Sem falar que foi durante sua gestão que o crime organizado ganhou força.
Ou seja, tudo havia voltado à estaca zero — ou, pior ainda, nunca saíra de lá.
Quase desistiu de tudo, mas, para tentar dar um futuro melhor à sobrinha, continuou lutando. Acreditava que o povo iria acordar e, assim, finalmente o país prosperaria. Mas então cometeu talvez seu maior erro: acreditar em uma “terceira via”.
O governador de seu estado, Davi — o “Leão Dourado” — começava a ganhar força. Criticava os dois lados e conquistava apoio popular para uma futura candidatura à presidência.
Fernando passou a acreditar nele cegamente, novamente caindo nas graças de mais um político, tudo porque ele falava o que Fernando queria ouvir. Até descobrir que Davi não queria ser a solução, mas sim parte do problema.
Revelou tudo o que descobrira sobre o governador. E ali assinou sua condenação.
Davi fingia ser novidade na política, mas manipulava tudo nos bastidores. Era o grande cabeça por trás do crime organizado e do mercado negro. Após visitar Fernando em sua própria casa, acompanhado de alguns homens, sua vida nunca mais foi a mesma.
Depois daquele dia, Fernando desistiu. Passou a beber e a fumar cachimbo sem parar. Pensava constantemente em tirar a própria vida.
Até que, certo dia, a campainha tocou.
Ele abriu a porta e se deparou com dois animais que nunca tinha visto.
— Olá — disse um deles —, sou conhecido como o Gato Detetive, mas pode me chamar de Gustavo. Esta é minha assistente, Ellen, a raposa. Precisamos da sua ajuda.
Fernando, o tucano, riu amargamente.
— Minha ajuda? Acho que vocês se enganaram. Devem estar procurando outra pessoa.
Ele fechou a porta, mas Gustavo a segurou e insistiu:
— Escute, temos um furo para você. Dos grandes. Sei que você odeia aqueles caras lá de cima. Por favor, nos ajude.
Enfurecido, Fernando retrucou:
— Vão embora! Me deixem em paz. Não sou mais jornalista!
Ellen tentou convencê-lo:
— Sempre acompanhei suas matérias. Você foi o único que teve coragem de expor aqueles malditos. Desde que perdi meu filho, sempre admirei seu trabalho. Mas nunca entendi por que você parou de repente. Pensei até que tivesse sido ameaçado... ou pior. Agora, temos provas comprometedoras de todo o esquema deles. Por favor, nos ajude. Faça justiça por todos que morreram nas mãos desses desgraçados.
Fernando, de rosto fechado e olhar quebrado, respondeu:
— Esqueçam essa luta. Não há como vencê-los. Desistam. Seguir nesse caminho só vai trazer mais dor. Eles me destruíram da pior forma possível.
Lágrimas escorreram de seu rosto. Então ele revelou:
— Quando expus algumas verdades sobre Davi, ele veio à minha casa com alguns homens. Eles me amarraram, me espancaram. Minha sobrinha, ainda criança, desceu correndo para me proteger — e eles a capturaram. A partir daquele dia, me torturavam sem piedade, enviando partes do corpo dela em caixas. Era a forma cruel de me lembrar que eu não tinha poder algum contra eles.
Sua voz embargou.
— A polícia nada fez. Fomos abandonados. Até que a última caixa chegou... com a cabeça dela. Eu nunca me perdoei. Se não tivesse entrado nessa briga, ela estaria viva. Eu a matei... eu a matei...
Fernando caiu de joelhos, bicando o chão, aos gritos de desespero.
Ellen colocou a mão em seu ombro e disse suavemente:
— Eu entendo sua dor. Passei por algo semelhante. Também desisti de lutar e vivi fugindo... até conhecer alguém. Podemos ter justiça pela sua sobrinha. E pelo meu filho. Mas, para isso, precisamos expor a verdade. Precisamos desmascará-los perante todos. Com as provas que tenho, o povo não terá escolha a não ser acordar e tirar esses desgraçados do poder, assim criando leis mais duras contra os criminosos.
Ela apertou a mão dele e concluiu:
— Você não a matou. Foram eles. Você apenas tentou lutar contra o sistema, tentou lutar por um país melhor para todos — só que aqueles lixos só sabem jogar sujo. Por favor, escute: você não tem culpa. Não se culpe dessa forma.
Fernando parou de chorar, mas suas mãos começaram a tremer. Lembrou de todo o ódio e de toda a dor que sentia pelo sistema — e também do medo. Do que fizeram com ele, com o irmão e a cunhada, e principalmente com a sobrinha.
Queria vingança. Queria justiça.
Talvez fosse isso que ele precisava: alguém que lhe oferecesse uma pequena esperança, mesmo que não levasse a lugar algum. Ainda assim, decidiu tentar. Afinal, já não tinha mais nada a perder.
Cansado, destruído e quebrado — mas determinado —, murmurou:
— Deixem-me ver essas provas.
Ellen entregou-lhe um celular, com várias cópias salvas.
Ao ver tudo aquilo, Fernando ficou perplexo.
— Estou dentro. Postarei isso no meu portal de notícias. Expor tudo. Mas vocês precisam fugir. Eles virão atrás de mim e me matarão sem piedade.
Ellen balançou a cabeça.
— Não! Sei que você tem muitos contatos na TV. Precisamos conectar este pendrive ao computador central. Assim, a mensagem será transmitida a todos.
Se você postar no seu portal, eles derrubam em minutos. Lembre-se: eles têm vários juízes no bolso. Naquela época, poderiam simplesmente ter derrubado seu site... mas escolheram te destruir. Eles são baixos, podres.
Ela respirou fundo.
— Mas ao vivo é diferente. Eles não conseguem parar a tempo.
Fernando franziu a testa.
— O que você quer dizer com isso?
Gustavo olhou para Ellen, desconfiado, e a puxou um pouco para o lado.
— Tem certeza que devemos contar tudo? Já demos informação demais. E se ele nos entregar?
Ellen apertou o pendrive com força na mão e respondeu:
— Talvez esteja certo. Mas vale o risco. Nunca estivemos tão perto de revelar a verdade. Temos que confiar. Sem falar que alguém que passou pelo que ele passou jamais compactuaria com eles. Além do mais, esse é o caminho certo, não é?
Gustavo sorriu.
— Ok, tem razão. Com certeza. É melhor do que sair matando todo mundo.
Ela voltou até Fernando.
— Não vamos invadir a transmissão de um único canal. Vamos fazer algo maior.
Ela ergueu o pendrive entre os dedos.
— Quando isso for conectado, a transmissão deixará de ser deles. O satélite inteiro será infectado. Então teremos acesso a toda a transmissão televisiva do país.
Fernando arregalou os olhos.
— Só com isso?
— Foi assim que conseguimos aquelas provas — respondeu ela. — Eles se acham intocáveis. Sistemas lacrados, protegidos… mas todo sistema possui falhas. A gente só precisa explorar essa brecha.
Gustavo completou:
— O vídeo já está pronto. Assim que conectar, ele entra no ar. Em todos os lugares. Ao mesmo tempo.
Fernando ainda parecia atordoado, mas agora havia algo diferente em seu olhar:
medo… e esperança.
Talvez fosse loucura.
Talvez fosse suicídio.
Talvez aqueles dois fossem ainda mais inconsequentes do que ele.
Mas, se desse certo, o país inteiro veria a verdade.
E, pela primeira vez em muito tempo, eles não estariam fugindo.
Estariam fazendo um ataque direto ao sistema.
Mas havia um porém: o plano era arriscado demais, sem garantia alguma de que conseguiriam sair da emissora.
Ainda assim, eles tinham fé de que a confusão que iria estourar lá fora seria suficiente para que escapassem.
Precisavam lutar. Por todos que já não estavam mais ali.
-----------
Comentários
Postar um comentário