Dragão Gosma – O Destino Amaldiçoado:

Certo dia, numa rua movimentada, uma criança faminta e completamente ferida vagava sozinha. Justamente naquela tarde, a carruagem real passava por ali. O rei, ao notar o menino naquele estado, ordenou que parassem e desceu, sob os olhares encantados da multidão.Aproximando-se da criança, disse: — Venha comigo. Nunca mais passará fome. Mas, para isso, terá que trabalhar.

O garoto, sem alternativa, aceitou. Trabalhar para o rei não parecia ruim para alguém que nascera pobre — talvez fosse sua maior chance.

No castelo, o rei apresentou-o ao seu leal serviçal real:

— Este será seu aprendiz. Quero que o torne tão bom quanto você. Parece que ele era um escravo… se possível, trate-o bem para superar esse trauma.

O mestre era rígido e exigente, mas o tratava com respeito. O garoto dedicava-se com afinco. Nos momentos de descanso, sentava-se num canto do jardim real, observando a beleza do lugar. Foi ali que conheceu uma garota da sua idade, vestida com um refinado vestido.

— Qual o seu nome? — ela perguntou.

— Steve — respondeu ele.

Diariamente encontravam-se naquele mesmo ponto. Tornaram-se grandes amigos. Um dia Steve descobriu que ela era a princesa, o que tornou a relação mais formal — mas não menos significativa.

Certo dia, eles estavam sentados novamente próximos ao jardim.

— Quando eu for rainha, posso lhe dar um grande presente… já sei, vou te dar uma casa grande — ela disse.

Steve riu.

— Eu não preciso de uma casa grande.

— Então, o que você quer?

Ele pensou por um momento.

— Quero ser seu amigo para sempre.

Ela riu, colocando os dedos suavemente diante da boca.

— Você é muito bobo… e é claro que sempre seremos amigos.

Anos se passaram. Aos dezoito anos, Steve concluiu seu treinamento e tornou-se serviçal real por completo, leal e eficiente. O rei o admirava. Se Steve fosse nobre, talvez recebesse a mão da princesa. Mas casamentos reais serviam a alianças, não ao amor.

Então o rei adoeceu e ficou acamado. A princesa, agora mais distante, parecia diferente — talvez fosse só impressão, mas ainda era doce e gentil. Junto ao conselho, ela assumiu o reino. Sempre fiel, Steve permaneceu ao seu lado, oferecendo conselhos. Ela o tratava com carinho.

Certa noite, Steve viu uma mulher encapuzada sair discretamente do quarto do rei.

— Quem é você? — perguntou.

— Sou apenas a médica substituta — respondeu ela. — O médico principal teve que sair da cidade. Estou fazendo o possível.

— Por que essa máscara? A doença do rei não é contagiosa.

Antes que ela respondesse, um grito vindo do quarto os interrompeu. Steve correu até lá. No meio das empregadas em pânico, entendeu o que havia acontecido: o rei estava morto.

Voltou para procurar a médica, mas ela já não estava ali. Ao informar a princesa, ela chorou em seu ombro. Quando ele mencionou a mulher mascarada, a princesa apenas riu:

— Não existem médicas mulheres, querido. Nenhum guarda a viu. Talvez você esteja imaginando coisas.

Steve notou algo estranho no olhar dela, na forma como falou.

— Está tudo bem? Como os guardas sabiam da mulher mascarada, se a única pessoa para quem contei foi você? — questionou.

— Dance para mim — ela ordenou friamente.

Steve ficou imóvel.

— O quê?

— Dance.

Silêncio.

— É uma ordem.

Ele não se moveu.

Ela sorriu.

— Ou morra agora mesmo.

O coração dele disparou.

— Eu…

Ela apenas esperava.

Como se aquilo fosse divertido.

Confuso e apavorado, ele obedeceu de forma instintiva, sem entender o porquê. Talvez seu corpo já estivesse acostumado àquele tipo de ordem, devido ao seu passado.

Ela o observava com um sorriso perverso.

Ela percebeu.

Percebeu que ele não havia escolhido obedecer.

Seu corpo havia escolhido por ele.

E isso a fez sorrir ainda mais.

— Você é bonito e fofo. Adorei o tempo que passamos juntos. Devo dizer… meu coração gosta de você — ela falou suavemente, de forma manipuladora.

Ela se aproximou.

— A partir de agora, você será meu marido escravo. Farei o que quiser com você.

Uma pausa.

Ela sorriu de forma diabólica.
— Sou sua rainha… sua esposa… e sua dona.

A doçura da amiga havia desaparecido. Restava apenas uma mulher cruel e sádica.

Meses se passaram. O reino agora era governado com mão de ferro. Steve, antes amigo da princesa, tornara-se seu marido escravo. A rainha o torturava física e mentalmente. Adorava forçá-lo a sexo selvagem — mas sempre transformava prazer em dor.

Certo dia, em busca de respostas, Steve vasculhou os registros da família real e descobriu algo chocante: o rei teve filhas gêmeas. Uma delas, supostamente, morrera ainda bebê. Ele correu até seu antigo mestre para confirmar.

— Sim — respondeu o velho serviçal. — A rainha morreu no parto. Uma das gêmeas adoeceu e o médico real falhou em salvá-la. O rei nunca mais foi o mesmo.

— Esse é o mesmo médico que cuidava do rei? — ele perguntou.

— Sim. Um homem renomado. Mas, pouco depois da morte do rei, ele próprio faleceu, vítima da mesma doença. Morava sozinho na floresta.

Steve partiu até a casa do médico. Um lugar sombrio, quase um pântano. Ao entrar, encontrou tudo revirado: livros rasgados, frascos quebrados. Atrás de uma estante caída havia uma passagem subterrânea.

Desceu as escadas e deu de cara com uma visão perturbadora: tanques de vidro com criaturas deformadas flutuando em líquido viscoso. As paredes estavam cobertas por uma gosma de cheiro terrível. Aproximou-se de uma mesa onde repousava um grimório aberto. Leu os registros, sentindo o estômago se revirar.

— O médico era um feiticeiro! E havia uma aprendiz… não pode ser…

De repente ouviu passos. Saltos altos ecoando na escada. Congelou.

Era ela.

Sua esposa.

A mulher mascarada.

A nova rainha.

A gêmea perdida.

— Onde está minha amiga? Sua irmã! O que fez com ela, sua bruxa? — gritou.

Ela sorriu:

— Minha irmã? Ela se foi há muito tempo… Você nem percebeu, mas eu assumi o lugar dela no momento em que o rei “adoeceu”. Meu mestre… ele nunca foi meu mestre. Queria meu sangue para seus experimentos. Aprendi feitiçaria observando. Quando escapei, matei minha irmã. Tomei seu lugar. Envenenei meu pai. E transformei meu "mestre"… veja ali.

Ela apontou para uma criatura monstruosa, coberta por gosma. Parecia um dragão deformado, com olhos no rosto e nos ombros. Triste. Sofrido.

Steve olhou horrorizado para a criatura.

— Você não vai escapar! Todos saberão a verdade! — esbravejou.

Ela aproximou-se lentamente, circulando-o como uma predadora:

— Você não contará nada… sabe por quê? Porque "eu" te adestrei. Fiz você pensar que tinha escolha. Mas você é meu brinquedo. Se me trair, darei a você um destino pior que o do feiticeiro. A dor dele não é apenas física — sua mente sofre o tempo todo.

Steve tremia. Ela estava certa. Seu corpo já não lhe obedecia.

Ajoelhou-se, com a cabeça erguida, olhando para ela, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos.

Sentia uma dor intensa no lado esquerdo do peito, por ter falhado em proteger sua amiga. Sentia-se usado e violado, completamente quebrado e destruído.

Mas, em meio a tanta dor, havia um estranho alívio ao saber que não era sua amiga quem o tratava daquela forma.

Ainda assim, a dor de tê-la perdido era insuportável.

— Minha amiga… — sussurrou.

Ela acariciou sua cabeça com uma ternura distorcida.

— Não chore, brinquedo… quero dizer, marido. Ela se foi. Mas não faz diferença. Eu sou idêntica a ela. Vamos para casa. Estou com vontade de brincar.

Steve abriu a boca.

Ele queria dizer não.

Queria gritar.

Queria atacá-la.

Queria matá-la.

Queria morrer.

Mas nenhuma palavra saiu.

Seu corpo não o obedecia mais.

Steve apenas abaixou a cabeça e aceitou seu destino.

— Sim, minha rainha.

Não havia mais fuga.

No fim, ele nunca deixara de ser um escravo.

O destino apenas o trouxe de volta.

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