Gato Detetive:

Capítulo 2:

Gato Detetive:

Minhas orelhas se eriçaram ao ouvir o leve clique do teclado.

Movi-me em silêncio, como só um gato consegue, e encontrei minha assistente copiando arquivos do computador central da delegacia, aproveitando que não havia ninguém por perto. Percebi que as câmeras estavam desligadas — e, assim que ela terminou, tudo voltou ao normal.

Continuei reunindo provas, mas o que mais me intrigava era outro detalhe: toda vez que ela conseguia informações sobre algum criminoso, esse animal aparecia morta poucos dias depois.

Comecei a suspeitar de que ela estivesse trabalhando para algum assassino que tinha como único padrão eliminar outros criminosos — mas eu não conhecia ninguém que agisse assim.

Num dia nublado, segui-a em silêncio. Meus passos eram leves, invisíveis, como os de um caçador noturno.

Na praça, ela se sentou ao lado de um pato que aparentava certa idade. Aquilo não fazia sentido — a idade não batia.

Mas eu conhecia apenas um assassino que era um pato. Ele estava disfarçado, eu tinha certeza.

Só podia ser ele.

Ela trabalhava para o lendário Pato Assassino.

Pelo que sei, o Pato mata qualquer um — um assassino psicopata, um verdadeiro serial killer. Mas por que agora ele está mirando em criminosos?

Infelizmente, eu não conseguia ouvir nada. Eles falavam muito baixo. Ainda assim, vi quando ela lhe entregou dois envelopes.

Nem eu sabia quem seria o próximo alvo, mas precisava permanecer atento.

Mais tarde, ao voltar para a delegacia, vasculhei os arquivos da polícia e descobri que estavam de olho em uma rota marítima suspeita: três navios com cargas ilegais passariam por ali. O que mais me espantou foi perceber que a própria polícia não estava fazendo nada para interceptá-los. Antes de revelar as provas contra minha assistente, decidi questionar meu chefe sobre os três navios, claramente ligados ao mercado negro.

Meu chefe era um hipopótamo humanoide calvo, com cabelo apenas nas laterais da cabeça. Ele fumava dois charutos ao mesmo tempo. Enquanto organizava algumas pastas, cravei meus olhos nele. Olhos de gato não piscam diante da mentira. Então o interrompi:

— Senhor, estive analisando os arquivos policiais e observei que três navios suspeitos irão descarregar sua carga em um local próximo ao lago. Não deveríamos rastrear para onde esse material está sendo levado? Essas cargas são clandestinas, pertencem ao mercado negro. Precisamos pegá-los em flagrante, com todas as provas, e prendê-los.

Ele bateu o punho na mesa, furioso:

— Por que estava mexendo em arquivos confidenciais? Você não está nesse caso! Apenas cuide do que designei a você.

Saí da sala frustrado. Mas lembrei: já havia feito parte da equipe que investigava esses casos. Até que, um tempo atrás, o chefe me transferiu para outro departamento, e desde então fiquei encarregado apenas de casos de assassinato. Disse que eu não servia porque não compactuava com a equipe. Nunca entendi o motivo daquela acusação.

Agora penso: será que ele estava envolvido com o mercado negro? Ou pior… quantos policiais faziam parte desse esquema? Eu não podia confiar em ninguém. Mas precisava concluir minha investigação sobre o Pato Assassino.

Investiguei minha assistente e descobri que ela havia apagado alguns arquivos de uma investigação policial ligados a alguém que possuía o mesmo sobrenome que o dela. O que poderia ser?

Também descobri que ela trabalhava para uma empresa de tecnologia. Cuidava da programação e da segurança dos sistemas — o que explicava como conseguia acessar com tanta facilidade os arquivos da polícia, mesmo sem possuir um cartão de acesso de alto nível de patente.

Minha conclusão inicial era que ela havia contratado — ou estava trabalhando com — o Pato por uma vingança pessoal. Mas isso não fazia muito sentido, pois os criminosos mortos não tinham ligação entre si.

Ainda assim, aquela investigação que ela apagou pode ser a chave para eu entender melhor suas ações.

Mesmo com tudo isso, algo ainda não bate. Por que estão atrás daqueles navios do mercado negro? Será que querem roubar a mercadoria… ou há alguém importante para eles preso lá?

Preciso descobrir o que é essa carga — e por que a querem tanto.

Como não podia contar com meus companheiros, decidi prendê-la e interrogá-la pessoalmente. Fui até sua casa e toquei a campainha. Ninguém atendeu. Logo vi uma mulher de sobretudo saindo pelos fundos, correndo até um carro. Era ela. Não confundiria aquelas orelhas de raposa. Corri atrás, apontei a arma e disparei tiros de advertência. Ela parou e ergueu as mãos.

— Ellen, estou desapontado. Você era uma boa amiga, éramos parceiros. E agora descubro que trabalha para o maior assassino. Você traiu a polícia, traiu os animais que deveríamos proteger. Você está presa!

Ela virou-se com lágrimas nos olhos e implorou:

— Por favor, não me prenda. Se fizer isso, eles vão me torturar até a morte.

Fiquei incrédulo. Mesmo suspeitando da corrupção da polícia, eu queria acreditar que eles não fariam isso com ela, pois ela era uma peça importante para capturar o Pato. Então indaguei:

— O quê? Não diga bobagens. Você estará segura na cadeia. Ninguém vai te torturar. Está falando do Pato Assassino? É assim que ele elimina as pontas soltas? Ellen, não precisa temê-lo. Vamos te manter segura. Só precisamos de informações para pegá-lo.

Ela gritou, furiosa, ainda chorando:

— Seu idiota! Não é ele! Você sabe por que a polícia quer tanto a cabeça dele? Ele só mata criminosos, gente ligada ao submundo. Se você me entregar, eles vão me entregar como troféu ao crime organizado. Eles vão me destruir! A polícia… quase todos lá fazem parte do sistema! É por isso que bandidos não ficam uma semana presos antes de serem soltos. Eles só prendem quem não faz parte do próprio sistema.

Suas palavras faziam sentido, ainda mais porque nosso chefe parecia ser um desses policiais corruptos. Por mais que eu quisesse negar, eles nunca me deixavam na sala de interrogatório e tampouco me permitiam ver o interrogado depois da sessão. Para piorar, nunca me deixavam acessar a ficha criminal daqueles que interrogavam. E, de fato, era verdade: havia muitos criminosos que a instituição prendia e, na semana seguinte, simplesmente soltava.

Mas retruquei, zangado:

— Mesmo que seja verdade, você trabalha para um assassino. Não é assim que se faz justiça!

Ela caiu de joelhos, chorando:

— Eu sei… eu sei! Mas você não vê o quanto este país está podre, dominado pelo crime organizado? Não são só policiais: empresários, juízes, promotores, políticos, jornalistas, artistas, até igrejas… todos estão na folha de pagamento. É por isso que criam tantas leis que beneficiam criminosos e restringem a liberdade do povo.

— Já que vai me prender, faça um favor… atire em mim. Me mate. Só assim me liberta de um destino pior que a morte.

Eu estava em choque com suas palavras, mas perguntei:

— Aquelas cargas… o que havia nelas?

Ela baixou a cabeça:

— O chefe te deu um cartão de acesso limitado porque você não faz parte dos corruptos. Mesmo sendo um detetive de alta patente, não desbloqueou toda a informação, não é? Dois navios estavam abarrotados de drogas. No último… tráfico animal. Animais destinados a terem seus órgãos roubados. Os mais jovens e bonitos eram vendidos como escravos sexuais. Ele — o Pato — vai salvar esses animais. É o único que faz isso. O único que se importa.

Eu compreendia sua frustração, mesmo sem concordar. Então perguntei:

— Por que você largou seu emprego antigo? Você ganhava muito bem. Por que veio trabalhar na polícia como simples assistente de um detetive, sem atuar na área de crimes cibernéticos? E por que apagou registros de investigações ligadas a um familiar seu?

Acho que já entendo parte da resposta, mas não toda.

Por que arriscar sua vida assim?

Ela respirou fundo, quebrada por dentro, e decidiu contar:

— Tudo começou num dia comum. Quando voltei do trabalho, meu filho não estava em casa. A polícia descobriu que ele estava com o pai. Mas o pai era um homem horrível, ligado a gangues pesadas. Quando o prenderam, ele confessou que matou nosso filho… mergulhando-o em ácido.

Ele me odiava, e odiava ainda mais a criança. Queria que eu abortasse no momento em que descobrimos a gravidez.

Fugi dele por anos, vivendo com medo de ser encontrada. Até que meu filho foi atrás do pai… com certeza queria conhecê-lo. Meu erro foi não dizer a verdade a ele.

Aquele desgraçado foi preso pelo que fez e, em uma semana, já estava solto. A primeira coisa que fez ao sair da cadeia foi ir atrás de mim. Ele me encurralou em um beco. Eu ia morrer ali também… mas ele apareceu. O pato que vocês chamam de assassino salvou minha vida. Ele o matou.

Ali eu entendi: não existe segurança, não existe justiça. Mas ele me deu justiça. Ele me deu proteção. Pode não ser o certo… mas, nesse mundo corrompido, a única forma de sobreviver é eliminando esses desgraçados!

Por isso apaguei os registros sobre a investigação do caso do meu filho. A polícia simplesmente ignorou sua morte e ainda soltou o assassino dele, que quase me matou também. Eu só queria apagar esse capítulo da delegacia, até porque eles nem se importaram.

Estavam mais preocupados com quem realmente matou meu ex-marido… (risos melancólicos). Acredita? Eles se importam mais com um criminoso morto do que com uma criança morta.

Foi por isso que larguei meu emprego anterior e me juntei à polícia. Eu queria ajudar a acabar com esse maldito sistema e, lá, teria os recursos necessários para fazê-lo. Mas não podia entrar para os crimes cibernéticos, pois poderiam suspeitar de mim. Então aceitei a vaga de assistente de detetive. Ninguém desconfiaria de uma assistente. O que eu não esperava era que você fosse tão bom e começasse a desconfiar de mim — um pequeno erro de cálculo.

As lágrimas não paravam de cair de seu rosto.

De repente, uma explosão sacudiu o lago, estrondosa, ouvida a quilômetros. Tanto eu quanto ela sabíamos quem era o responsável. O celular dela tocou. Permiti que olhasse o que era. No visor, chegaram arquivos, provas, conexões, fornecedores… tudo que seria necessário para expor a verdade.

Minhas garras estavam presas entre dois mundos: podia aprisioná-la como a criminosa que era ou usar aquelas provas para derrubar os corruptos dentro da instituição que eu suspeitava. E ainda podia ir além: derrubar todo o sistema de cima a baixo. No fundo, eu entendia o lado dela. O fato de a lei ter falhado com ela a levara a escolher fazer justiça com as próprias mãos, indo por um caminho errado.

Mesmo sem concordar com as ações dela e do Pato Assassino, escolhi a segunda opção: precisávamos mostrar a verdade. Essa era a única forma de tentar colocar as coisas nos trilhos novamente.

Entramos no carro dela e partimos. Agora, sabíamos exatamente o que precisávamos fazer.

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