Consequência dos seus atos:
O que ele trará:
⚠️ SPOILERS — caso não tenha lido os quatro capítulos anteriores, não recomendo prosseguir com este tópico.
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- Como o Pato Assassino sobreviveu à explosão.
- Como ele conseguiu o braço mecânico.
- Como ele consegue pilotar uma moto mesmo sendo cego.
- Se, nesse mundo, todos são animais, que carne eles consomem.
- Como Ellen, a raposa, reagiu ao saber da morte do Pato.
- A cena da festa.
- O passado de Davi, o Leão Dourado.
- Por que ele é um ser aprimorado.
- O que Ellen e o Pato conversaram antes de Gustavo, o gato detetive, acordar.
- E algumas cenas extras mostrando o que aconteceu depois do Capítulo 4.
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Foi muito divertido trabalhar nessa série.
Em breve, trarei um texto especial sobre toda a experiência que tive ao criar uma história dividida em capítulos.
Para os que leram, gostaria de pedir um feedback — quero saber se vocês gostaram ou não.
Mas, caso prefiram não comentar, tudo bem também.
De coração, obrigado a todos que acompanharam essa pequena jornada.
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Capítulo Extra:
Naquele momento, no navio em que estava o Pato Assassino, a embarcação se aproximava para colidir com as outras duas. Por um instante, ele aceitou que aquele seria o seu fim.
Mas então pensou em tudo o que viveu — em toda a dor que o sistema causara a ele e à sua família — e percebeu que essa dor não terminava neles, mas se estendia a todos. Sabia que não podia morrer ali, não enquanto ainda existissem aqueles ligados ao sistema.
Então atirou na lateral da porta da cabine de comando, soltando-a. Pegou a porta e, no instante em que o navio colidiu com os outros dois — com os explosivos prestes a detonar — correu até a borda. A explosão destruiu tudo, mas, no último segundo, ele usou a porta como escudo e se lançou ao mar.
O Pato Assassino foi encontrado quase morto, completamente ferido e sem um braço, na beira de uma praia que desembocava numa fazenda distante da cidade. Uma jovem pata cuidava de seus ferimentos.
De repente, ele acordou assustado. Ela o tranquilizou, dizendo que estava tudo bem, que ele estava seguro, e contou como o encontrara.
Ele percebeu que estava sem seu sobretudo — onde guardava as armas — e pensou tratar-se de uma armadilha. Logo ela se levantou e trouxe o sobretudo completamente limpo, com algumas alterações que fizera, já que a roupa fora muito danificada — só faltava uma das mangas, perdida junto ao braço.
Ele vestiu o sobretudo azul, notou que as armas não estavam ali e perguntou:
— Onde estão minhas armas? Creio que, pela cor do meu sobretudo, você soube quem eu sou. Não sei se trabalha para eles, mas, se for o caso, saiba que não preciso de arma para matar quem estiver no meu caminho. Vou perguntar só uma vez: cadê minhas armas?
A cabeça dele doía; parecia confuso, sem raciocinar direito. Ela abriu uma gaveta do guarda-roupa e entregou as armas com as munições. Ele as pegou e agradeceu.
Ela então disse:
— De fato, eu sei quem você é. Quer saber por que te salvei?
O Pato sentou-se na cama, com a mão na cabeça, e respondeu:
— Porque a recompensa pela minha cabeça é enorme. Você ficaria rica se me entregasse vivo — morto, eu não valho tanto.
Ela riu:
— Se for verdade, por que você não está amarrado? E por que acha que eu devolvi suas armas?
Ele sacudiu a cabeça, voltou a si e falou:
— Conheço muitos truques. Do lado de fora deve haver um monte de animais armados. Ou talvez você esteja apenas sendo gentil — cuidando de mim, devolvendo minhas armas para que eu confie em você e, depois, no fim, me trair e me entregar.
Posso imaginar vários cenários. Sorte sua — eu não mato sem ter certeza de que o animal tirou a vida de um inocente, direta ou indiretamente.
Ela ficou surpresa:
— Credo, você vive com essa paranoia? Deve ser horrível viver sempre com medo.
O assassino tentou se justificar, sem jeito:
— Medo? Não tenho medo de nada. Sou o lendário Pato Assassino. Eles é que me temem — não eu a eles.
Ela sorriu, sincera:
— Entendo. Deixe-me contar uma história.
Era uma vez uma pequena pata que perdera a mãe ao nascer — uma gravidez de risco; a mãe escolhera salvar a filha em vez de si mesma. O pai era rígido e distante, talvez a culpasse pela perda da esposa.
Mas a pequena pata tinha um sonho: queria ser inventora. O pai sempre tentava fazê-la desistir, mas ela era insistente. Acreditava nos outros e queria ajudar, ser como a mãe, que pensara mais na filha do que em si.
Um dia, voltando da escola, encontrou um animal recém-espancado por homens de terno preto e casaca. Ela cuidou dos ferimentos dele. No dia seguinte, depois da aula, ele lhe deu um pirulito e a levou até o local onde haviam se encontrado. Quando os homens voltaram, ele a entregou a eles, dizendo que a levariam para casa.
No carro luxuoso, ela ouviu um dos homens ao telefone comentar que “o homem pagara a dívida”. Ao escutar aquilo, ficou apavorada. Levaram-na até uma casa abandonada e a trancaram numa gaiola, junto a várias outras que também continham animais. Ela chorava, tomada pelo medo. Seu erro fora tentar ser gentil… confiar demais.
Naquela noite, tiros ecoaram — e a pequena pata tremia, com lágrimas nos olhos. De repente, a porta se abriu. De lá saiu um pato que não parecia fazer parte daquele bando: vestia um sobretudo azul. Ele libertou todos os prisioneiros e, por fim, a pequena pata.
Ela, ainda assustada, sentiu um alívio profundo. Ele percebeu que ela ainda tremia e a levou até a porta de casa.
Num gesto quase tolo, buscando a atenção de seu salvador, ela perguntou se devia seguir seu sonho — mesmo com a desaprovação do pai.
O pato sorriu e respondeu:
— Sonhos não devem ser guiados pelos desejos dos outros, mas pelo seu próprio.
Ela nunca esqueceu.
Anos depois, mesmo sabendo que todos o temiam e o odiavam, ainda lembrava que ele a salvara — e que fora ele quem a incentivara a seguir seu sonho. Lágrimas lhe escorriam pelo rosto ao recordar.
Ao ouvir tudo, o Pato pôs a mão no ombro dela: — Posso não saber seu rosto; devo dizer… você já notou que sou cego, né? Mas lembro desse dia — era você, a pequena pata.
Ela o abraçou, agradecida.
Depois ele perguntou:
— Cadê seu pai?
Ela respondeu:
— Nossa fazenda vende carne. Meu pai cuida dos negócios fora da cidade; volta no começo da semana.
O Pato alongou o braço e falou:
— Entendi. Não se preocupe; sairei antes que ele volte. Se ele me vir, vai te matar — risos — afinal, sou o lendário Pato Assassino.
Ela riu:
— Com certeza ele teria um ataque cardíaco se te visse.
Em seguida, mudou a expressão, virou de costas e disse:
— Venha comigo. Enquanto você estava inconsciente, eu fiz algo que pode ajudar.
Ela entregou a bengala dele, que estava perto da porta, e o levou ao porão, cheio de objetos eletrônicos e invenções. Ele, cego, tocou nos aparelhos e ficou surpreso:
— Uau! Você faz robôs? Então esse era seu sonho. Incrível!
Ela sorriu:
— Na verdade, eu não faço apenas robôs. Crio muitas outras coisas... mas gosto mais da parte da robótica.
Em seguida, pegou um braço mecânico e o acoplou ao Pato. Ele o moveu com naturalidade, como se nunca o tivesse perdido:
— Imprecionante! Você devia realmente trabalhar nessa área.
Ela, um pouco triste, respondeu:
— Meu pai não gosta dessas coisas. Ele quer que eu continue o negócio da fazenda. Quando você me salvou eu tinha oito anos; já se passaram dez. Agora sou maior de idade, e ele me prepara para assumir a fazenda.
O Pato disse:
— Você deveria seguir seu sonho. Eu sei que é difícil sair da casa dos pais sem dinheiro. Desculpe… não posso resolver isso por você, pelo menos não agora… mesmo depois de ter me presenteado com um braço novinho em folha.
Ela negou:
— Você não me deve nada. É o mínimo pelo que fez por mim. Obrigada. — e sorriu.
O Pato tocou a cabeça e notou fios de cabelo grandes:
— Fiquei apagado por tanto tempo? Por que meu cabelo está grande? Eu o tinha raspado.
Ela, sem jeito, confessou:
— Criei um spray. Queria testá-lo — talvez fosse a cura para a calvície. Meu pai é calvo; quis mostrar que minhas invenções podem ser útil. Testei em você… e parece que funcionou.
Ele riu:
— Ok, posso me acostumar.
Eles saíram do porão e caminharam pelos currais, onde havia animais animalescos e irracionais, todos preparados para o abate.
Ela explicou:
— Houve uma guerra entre carnívoros e não carnívoros por alimento. Os carnívoros queriam carne e não se importavam em caçar os não carnívoros; estes, por sua vez, queriam deixar de ser caçados e devorados. Depois de muita morte, firmou-se um acordo cruel: as proles “falhas” — animais que nasciam animalescos e irracionais — seriam criadas nas fazendas para servir de carne. Assim “a paz” voltou.
O Pato baixou a cabeça:
— Em uma ninhada sempre vem alguém que nasce com “falha” e vira animalesco. Meu irmão era assim — animalesco no corpo, mas racional na mente, algo raro. Eu o amava; minha mãe também. Meu pai o via como aberração e quis vendê-lo. Ela se recusou; meu pai foi embora e nos abandonou... Desculpe, não queria pesar o clima.
Ela, de cabeça baixa:
— Sinto muito. Por isso não quero seguir os passos do meu pai. Se um dia tiver um filho assim, jamais o venderia; eu o amaria. Dói ver esses animais sendo abatidos.
Na manhã seguinte, ouvindo o rádio, o Pato escutou que sua morte fora anunciada. Levantou-se:
— Preciso voltar. O momento está chegando; certamente os grandes vão festejar minha morte num único local. É minha oportunidade de finalmente acabar com os peixes grandes.
Ela ofereceu:
— A fazenda é longe; posso levá-lo na minha caminhonete.
Ele balançou a cabeça:
— Não quero te colocar em risco. Se suspeitarem que me ajudou, destruirão você. Se tiver ônibus, eu pego.
Ela explicou que ônibus não passavam no fim de semana, mas teve uma ideia melhor: uma moto no celeiro. Perguntou se ele sabia pilotar.
Ele coçou a cabeça:
— Sei dirigir qualquer veículo… o problema é que sou cego.
Ela ficou admirada:
— Mesmo cego, você parece perceber mais que os outros. Talvez consiga pilotar essa moto.
Ele explicou:
— Provavelmente não. Não vejo nada, mas meus outros sentidos são aguçados. Uso a bengala; cada batida que dou no chão me permite “ver” ondas sonoras que se propagam pelo local. Com o som, enxergo o ambiente — mas em veículos não há como utilizá-la.
Ela entendeu e instalou rapidamente um pedaço de madeira com uma borracha especial embaixo da moto, que gerava batidas no chão a cada segundo, criando as ondas sonoras sensoriais necessárias.
Ele testou a moto e pilotou sem bater em nada:
— Você é realmente uma das pessoas mais incríveis que já conheci.
Ela ficou sem jeito:
— Você me elogia demais; não estou acostumada. Obrigada.
— Quanto quer pela moto? — perguntou ele.
— Pode ficar com ela. Meu pai ia jogá-la fora; eu a consertei para agradá-lo, mas com certeza ele ficaria desapontado ao saber que continuo fazendo isso. Leve.
Ela também lhe deu um óculos semelhante ao seu anterior, que havia quebrado — porém menor — e disse:
— Por favor, não morra.
Ele sorriu, ligou a moto e acendeu o cigarro:
— Se a explosão não me matou, nada mais me mata. Até eu eliminar aqueles lixos, não terei permissão para morrer.
E não vou esquecer o que você fez por mim. Eu sempre pago minhas dívidas.
Partiu para a cidade; o celular que ela consertara guiava a rota.
Mais tarde, a caminho da emissora, Ellen — a raposa assistente — estava no banco da frente, enquanto Gustavo, o gato detetive, dirigia.
Fernando, o tucano jornalista, sentava-se no banco de trás, observando tudo em silêncio.
Desde a notícia da morte do Pato, Ellen parecia abatida — o olhar vazio, a expressão triste e o corpo entregue à melancolia.
Gustavo, mantendo os olhos fixos na estrada, quebrou o silêncio:
— Não posso dizer que estou triste pela morte dele… mas não gosto de te ver assim.
Se serve de consolo, de certa forma vamos vingar o Pato — expondo toda a informação que ele nos passou antes de partir.
Fernando então comentou, com um tom de curiosidade e leve desconfiança:
— Devo admitir, fiquei surpreso com tudo o que você me contou sobre a lenda do maior assassino.
Só não esperava que você tivesse trabalhado para ele… a polícia nunca suspeitou que você fosse a informante?
Ellen levantou a cabeça, respirou fundo e respondeu, com a voz pesada:
— Eles suspeitavam que alguém dentro da corporação passava informações.
Vários animais que trabalhavam na delegacia simplesmente desapareciam, e, quando perguntavam sobre eles, o chefe dizia que tinham sido transferidos para outra cidade.
Ela fez uma pausa, o olhar distante, como se revivesse cada lembrança dolorosa.
Depois continuou, num tom mais firme, porém amargo:
— Mas, ao investigar, descobri a verdade. Eles matavam os suspeitos e suas famílias — mesmo sabendo que eram inocentes.
Tudo por causa das torturas durante os interrogatórios.
Quando percebiam que tinham torturado o animal errado, preferiam matá-lo para garantir que ninguém soubesse o que realmente aconteceu.
Ellen abaixou a cabeça, a voz trêmula e embargada pela culpa:
— Minha cabeça dói só de pensar que todas essas mortes estão nas minhas mãos...
A maioria dos suspeitos era de animais bons, honestos… não corruptos.
O silêncio tomou conta do carro.
Nenhum deles encontrou palavras que pudessem aliviar o peso daquela confissão.
A tensão pairava no ar, densa e sufocante, até que, finalmente, chegaram à emissora.
Alguns minutos depois, na festa dos poderosos — organizada para celebrar a morte do Pato Assassino —, após tudo ter sido exposto nas telas, alguns convidados cochichavam entre si:
— Isso está muito estranho. Como conseguiram transmitir toda essa informação de forma tão abrangente? E, além disso, como acessaram e roubaram esses arquivos?
— Com certeza foi obra do Pato Assassino; seu “último presente” para nós. Até morto esse verme dá trabalho. E tem dedo do maldito hacker que trabalhava pra ele.
— Será que isso vira um problema?
— Não se preocupem — riram alguns —. A maior parte do povo, dividida em lados opostos, acredita mais em nós do que nas provas. Eles passam pano para tudo que fazemos. Além do mais, Davi vai resolver tudo, como sempre: um grande exemplo de liderança.
De repente as luzes começaram a piscar, apagando e acendendo, até que o escuro dominou o salão. O choque tomou conta dos presentes. Ouviam-se tiros; o pânico se instalou e todos correram para as saídas — mas a porta estava trancada. O desespero cresceu, até que a luz voltou a iluminar o ambiente. Então viram: todos os seguranças estavam mortos. No palco estava o pior pesadelo deles — aquele que “voltou dos mortos”. O medo se espalhou.
Um convidado, incrédulo, falou, negando o óbvio:
— Impossível! Deve ser uma encenação, uma apresentação para nos entreter. Com certeza os seguranças não estão mortos de verdade. O senhor Davi adora nos impressionar — (risos nervosos).
Num segundo, o Pato atirou na perna do homem que falara. O pânico explodiu: tudo era real — a lenda havia retornado. Alguns presentes gritavam:
— Como ainda está vivo?
— Por favor, não me mate! Faço tudo que quiser!
— Todos têm um preço. Quanto quer para poupar minha vida?
— Se você nos matar, nada mudará e tudo ficará ainda mais difícil para você.
— Por que faz isso? Por que nos persegue? Pense: você poderia trabalhar para nós, não seria mais perseguido. O que acha?
O Pato bateu a bengala três vezes no chão do palco; o som ecoou por todo o salão. Todos calaram-se, tomados pelo medo. Ele falou, com voz cortante:
— Vocês manipulam, enganam e destroem... prejudicam a vida de todos... e agora temem a morte. Achavam que todas as barbaridades que faziam não teriam consequências? Pois deixem-me dizer: vocês me criaram. Transformaram-me nisso. Sou a mais pura vingança, o mais puro ódio — a resposta contra o sistema. Sou a consequência dos seus atos!
Então perguntou, seco:
— Quem é o líder? Quem manda em tudo? Quem é o cabeça por trás de tudo? Se me contarem, posso poupar a vida de vocês.
Por um instante muitos se apegaram à esperança; outros calaram-se por medo — temiam mais a ira de Davi do que a do Pato —, mas os mais covardes gritavam sem pensar:
— Davi!
— Davi, o governador — o Leão Dourado — é o líder por trás de tudo. Ele controla tudo!
— Por favor, nos poupe! Contaremos o que quiser.
— Seja misericordioso. Cumpra sua palavra.
Eles disseram que Davi havia ido “resolver o problema da transmissão”. Imploraram. Então, contra todas as expectativas, o Pato abriu fogo: atingiu pernas e braços de vários presentes, em alta velocidade, trocando de arma assim que descarregavam. Todos agonizavam de dor, sem entender — ele havia prometido poupá-los caso contassem quem mandava em tudo.
O Pato passou entre os corpos caídos e, frio, falou:
— Nunca confiem nas palavras de um criminoso, a não ser que tenham a vida dele — ou de alguém que ele ame — na palma da mão. Além do mais, eu cumpri o que disse: poupei a vida de vocês. Não serei eu que os matarei; será algo "acidental". (risos frios)
Pegou um controle e apertou um botão. Em um segundo, celulares e telefones explodiram.
O Pato destrancou a porta, saiu e trancou-a novamente pelo lado de fora.
Logo, um incêndio começou no salão. Gritos de desespero ecoavam lá dentro, mas do lado de fora ninguém ouvia — o local era à prova de som.
Ele havia planejado tudo com precisão: incendiara pontos estratégicos da cidade para manter os bombeiros ocupados, e quando soubessem do incêndio, já seria tarde demais.
Com a população nas ruas, chocada pelas provas exibidas nas telas, ninguém perceberia o fogo consumindo o salão — nem teria tempo de salvá-los.
Caminhou até a moto, com o local atrás dele em chamas, acendeu um cigarro, montou e pilotou sem arrependimentos — seu dever quase concluído; faltava apenas uma última engrenagem para fazer a máquina quebrar. Ellen carregava um rastreador; ele sabia onde encontrá-la.
Logo depois, ao chegar à torre da TV G, entrou por um estreito duto de ventilação nos fundos, já que a entrada principal estava tomada por policiais.
Ao se infiltrar no prédio, ouviu disparos ecoando pelos corredores dos andares superiores.
Sem perder tempo, espalhou diversos dispositivos de gás do sono pelos níveis inferiores — uma precaução, caso a polícia tentasse avançar.
Em seguida, correu em direção ao som dos tiros.
Depois de derrotar Davi — amputando-lhe braços e pernas com balas especiais — o Pato começou a torturá-lo, arrancando-lhe os olhos. Antes de continuar, porém, perguntou:
— Quero entender: você é um ser aprimorado, como meu irmão... Mas seres aprimorados são apenas armas — ninguém da elite se sujeitaria a um experimento tão arriscado. Então é melhor me contar, ou a tortura ficará ainda pior. (risos malignos)
Davi, sem escolha e sentindo dor insuportável, falou:
— Nasci numa família influente do mercado de bebidas alcoólicas, mas meu pai era um peão nas mãos do crime organizado. Eles trabalhavam juntos. Certa vez, meu velho se recusou a obedecer à ordem de colocar metanol nas bebidas para manter o preço baixo durante a crise econômica. Você sabe o que acontece quando se desobedece o sistema... O que fizeram com minha mãe foi horrível — ele parou, ofegante — depois da tortura, colocaram meu pai num aquário cheio de tubarões animalescos. Nunca vou esquecer aquela cena dilacerante.
O chefe me criou como parte da engrenagem; cortou minha cauda e me ensinou que a dor fazia parte da confiança e da lealdade. Usava minha cauda como um colar para me lembrar onde pertenço. Queria que eu assumisse o lugar do meu pai, mas não só assumi como usei tudo o que ele me ensinou e o destronei. Tornei-me o novo chefe do crime organizado, controlando o mercado negro e, por consequência, todo o sistema. Gostei do que fiz com ele... mas, no fundo, admirava a maneira como ele controlava tudo; era quase encantador.
Entendi o sistema, fui moldado por ele e me tornei parte central dele. Você seguiu o caminho oposto, preso a uma vingança inútil; por isso me saí tão bem manipulando tudo, mantendo todos sob minhas garras. Mas percebi que, para ser rei, não basta ter influência — é preciso ser o mais forte, até fisicamente. Por isso me submeti aos experimentos para me tornar um ser aprimorado; queria o ápice do poder, na influência e no corpo. Consegui ambos.
Você foi minha única "falha". Seu irmão era a maior arma que criamos, mas nunca despertou todo o potencial latente. Teria sido a arma perfeita para nos tornar a maior potência do planeta... então você o tirou de nós. Eu devia tê-lo matado quando você era apenas nosso escravo. Esse foi o meu maior erro — e a minha ruína.
Ao terminar, o Pato falou de forma sarcástica:
— Você não precisava me dar um contexto tão longo para uma resposta tão curta. Eu sei que você está tentando ganhar tempo para que algum milagre aconteça, para que alguém te salve. Mas, para você, não existe salvador.
Ele falou firme:
— A única coisa que existe é a consequência!
Logo em seguida, o Pato agarrou a língua de Davi e a cortou, prosseguindo com a tortura.
No terraço do prédio abandonado:
Ellen cobriu o corpo sem vida de Fernando com um lençol. Olhou para o Pato, observando o caos lá embaixo, e disse com convicção:
— Não pensei que isso fosse acontecer... Talvez seja necessário um símbolo de medo e vingança. Com certeza é o que precisamos. O caos e o terror são necessários.
Pelo que você me contou, farão um grande velório com todos os que você matou. Podemos usar essa ocasião para expor a verdade sobre o seu retorno. O povo pensa que você é apenas um assassino cruel, que mata a torto e a direito — mostraremos que você só mata criminosos; isso dará ainda mais razão à verdade que expusemos hoje.
Os criminosos voltarão a sentir pavor; qualquer um que pensar em seguir esse caminho saberá qual será seu destino. O medo é a única forma de equilibrar as coisas.
O Pato acendeu um cigarro e tragou, dizendo:
— Você não está pensando com clareza. Podemos acabar criando monstros ainda piores do que aqueles que combatemos. Prefiro ser visto como um monstro por todos do que me tornar um símbolo que, por consequência, inspirará outros a seguir por um caminho sem volta — uma cruzada cuja única saída é a própria morte.
Eles não entenderiam isso; seguiriam a idolatria por mais um ídolo, corromperiam a luta e deixariam o poder apodrecer tudo novamente.
Não existe poder — ou responsabilidade — maior do que decidir quem vive e quem morre. Brincar de Deus é um caminho sem perdão… e sem retorno.
Não busco ser amado, como numa seita, por fanáticos que acreditam que faço o certo. Sei que o que faço é errado — e sempre será. Ainda assim ajo dessa forma porque a justiça deste mundo falha — ou pior: ela não existe.
Nunca matei um inocente; jamais tirei a vida de alguém que não tivesse destruído ou prejudicado de forma irreversível a vida de outro. Sei manter o controle, impedir que o que faço me transforme em um monstro completo — mas você acha que outros, inspirados pela minha história, seguiriam o mesmo caminho e seriam iguais a mim? Não seriam.
Os animais ainda não sabem que voltei; uma hora vão descobrir. Certamente os poderosos tentaram impedir que a informação vazasse. Mas, quando descobrirem... deixem que me vejam apenas como o criminoso — o monstro — que sou.
Ele jogou o cigarro no chão e o apagou com o pé, olhando para baixo.
— No fim, a única forma de combater o sistema é nas sombras, sendo odiado por todos. Assim repelimos a idolatria e impedimos que novos monstros surjam. Este é o único caminho do medo e da vingança que, de fato, funciona.
Ellen entendeu as palavras do Pato; sabia que ele tinha razão, mesmo desejando uma solução rápida — e sabendo que a luta seria eterna.
De repente Gustavo, o gato detetive, começou a recobrar a consciência. O Pato falou:
— Vou distrair o detetive; é melhor você ir. Não acho que ele seja confiável. Tudo que você me contou sobre ele me faz pensar que é o tipo de animal que segue sempre o caminho "certo". Ele não pensará duas vezes antes de te entregar, já que você cumpriu seu papel.
Gustavo aproximou-se da platibanda e viu todo aquele caos. O Pato subiu e passou a conversar com ele. Ellen colocou os óculos escuros, olhou mais uma vez para o corpo de Fernando e foi embora, com lágrimas escorrendo pelos olhos.
No dia do grande velório, para todas aquelas figuras de poder que morreram, muitos animais estavam presentes, prestando condolências.
A mídia noticiou que um grupo revoltado com a "farsa" exibida naquele dia era o responsável, e ainda afirmou que o autor de tudo aquilo fora um funcionário da TV G. Ao expor a mentira, esse funcionário teria matado todos os que estavam no edifício e, logo depois, tirado a própria vida. O motivo? Simples: era um lunático, um teórico da conspiração.
A imprensa manipulava a verdade, moldando os fatos para favorecer a narrativa do sistema, que precisava se reconstruir após perder suas principais figuras de comando. Além disso, os jornais e noticiários ocultavam tanto a volta do Pato Assassino quanto o envolvimento do hacker, cuja identidade era desconhecida.
Se a população descobrisse a habilidade desse hacker, começariam a questionar a veracidade do material que fora divulgado — e poderiam ligar tudo ao Pato, já que as provas vieram à tona no exato dia em que sua morte foi noticiada.
E, se soubessem que o Pato estava vivo e fora o autor daquela ação, o pânico, o medo e, principalmente, o questionamento se espalhariam pela nação. Isso representava um problema enorme para o sistema: mesmo sabendo que grande parte do povo aceitava tudo por fanatismo e idolatria, eles não podiam arriscar. Não havia como prever até que ponto os animais manteriam a obediência cega diante de tais revelações.
A pata ouviu tudo pela TV. Mesmo com a mídia ocultando a verdade, ela sabia que tinha sido ele.
Ela entendia a escolha do Pato, mas temia por ele. Sabia que aquele caminho só levava ao sofrimento e a uma morte certa.
Ao descer para o porão, deparou-se com um saco cheio de dinheiro. Havia um bilhete.
“Com esse dinheiro, você pode seguir seu sonho. Digamos que estou pagando pelo braço, pela moto… e, mais uma vez, obrigado.”
A pata sorriu, e uma lágrima escorreu pelo seu olho.
No dia seguinte, no último andar de um prédio luxuoso, encontrava-se o chefe do departamento de sites de apostas e cassinos online. De repente, sua assistente entrou apressada, informando que alguém de outro país havia vindo visitá-lo — alguém muito influente. Ele mandou que o deixassem entrar.
A porta se abriu, revelando um homem alto: uma águia humanoide de plumagem negra, com uma cicatriz profunda sobre o olho esquerdo — um olho sem pupila. Vestia terno preto impecável, sobretudo escuro e uma cartola que reforçava sua imponência. Sentou-se na poltrona com postura firme e olhar frio.
O chefe do departamento — um pica-pau humanoide baixo e de fala nervosa — ficou visivelmente surpreso. Depois de alguns segundos, tentou disfarçar o desconforto e perguntou:
— O que traz aqui o chefe do crime organizado da maior potência militar?
O estrangeiro respondeu:
— Léo, devo parabenizá-lo pela sua criação. Mesmo tendo cassinos no meu país, o mercado online é ainda melhor; sem falar nas casas de aposta, que fazem sucesso mundo afora. Meus parabéns. — Tirou a cartola e continuou: — Mas devo dizer que a morte de Davi me surpreendeu. Ele era ótimo para os negócios. Agora que as figuras de comando se foram, o sistema está dividido: uns clamam pela sua liderança, outros pela de Samuel. Quem sairá vencedor dessa disputa pelo trono? — (risos). — Posso ajudá-lo. Está interessado?
Léo engoliu em seco e respondeu:
— Sim. Estou interessado, mas seus favores sempre vêm com um preço muito alto.
O estrangeiro sorriu:
— Talvez você tenha razão. Quero parte das suas riquezas florestais; em troca, entrego-lhe a cabeça do hacker e, por consequência, a do Pato — como brinde. Se recusar, aumentarei as taxas sobre seu país. O que me diz?
Em outro ponto da cidade, numa fábrica abandonada, Samuel, o mico-leão, remexia arquivos quando um homem gordo — um panda humanoide de terno vermelho e sobretudo branco — chegou acompanhado por dois tigres humanoides com terno e sobretudo negro. Tirou o chapéu e falou:
— Há quanto tempo, Samuel.
Samuel assustou-se ao ver o chefe do crime organizado da segunda maior potência e gaguejou:
— O que faz aqui? Como... como me achou?
O panda sorriu, recolocou o chapéu e disse:
— Muito bem. Vamos ao acordo. Sei como as coisas andam por aqui. Ajudarei a eliminar seu rival e aquele “problema”; em troca, quero mais desconto nos suprimentos que compro de seus fornecedores.
Samuel retrucou:
— Desconto? Isso é inviável! O pessoal do setor agro conspirará contra mim.
O panda sorriu novamente:
— Você que sabe. Mas, segundo meus informantes, ele procurou Léo e propôs um acordo. Agora só lhe resta a mim. O que me diz?
Mas então pensou em tudo o que viveu — em toda a dor que o sistema causara a ele e à sua família — e percebeu que essa dor não terminava neles, mas se estendia a todos. Sabia que não podia morrer ali, não enquanto ainda existissem aqueles ligados ao sistema.
Então atirou na lateral da porta da cabine de comando, soltando-a. Pegou a porta e, no instante em que o navio colidiu com os outros dois — com os explosivos prestes a detonar — correu até a borda. A explosão destruiu tudo, mas, no último segundo, ele usou a porta como escudo e se lançou ao mar.
O Pato Assassino foi encontrado quase morto, completamente ferido e sem um braço, na beira de uma praia que desembocava numa fazenda distante da cidade. Uma jovem pata cuidava de seus ferimentos.
De repente, ele acordou assustado. Ela o tranquilizou, dizendo que estava tudo bem, que ele estava seguro, e contou como o encontrara.
Ele percebeu que estava sem seu sobretudo — onde guardava as armas — e pensou tratar-se de uma armadilha. Logo ela se levantou e trouxe o sobretudo completamente limpo, com algumas alterações que fizera, já que a roupa fora muito danificada — só faltava uma das mangas, perdida junto ao braço.
Ele vestiu o sobretudo azul, notou que as armas não estavam ali e perguntou:
— Onde estão minhas armas? Creio que, pela cor do meu sobretudo, você soube quem eu sou. Não sei se trabalha para eles, mas, se for o caso, saiba que não preciso de arma para matar quem estiver no meu caminho. Vou perguntar só uma vez: cadê minhas armas?
A cabeça dele doía; parecia confuso, sem raciocinar direito. Ela abriu uma gaveta do guarda-roupa e entregou as armas com as munições. Ele as pegou e agradeceu.
Ela então disse:
— De fato, eu sei quem você é. Quer saber por que te salvei?
O Pato sentou-se na cama, com a mão na cabeça, e respondeu:
— Porque a recompensa pela minha cabeça é enorme. Você ficaria rica se me entregasse vivo — morto, eu não valho tanto.
Ela riu:
— Se for verdade, por que você não está amarrado? E por que acha que eu devolvi suas armas?
Ele sacudiu a cabeça, voltou a si e falou:
— Conheço muitos truques. Do lado de fora deve haver um monte de animais armados. Ou talvez você esteja apenas sendo gentil — cuidando de mim, devolvendo minhas armas para que eu confie em você e, depois, no fim, me trair e me entregar.
Posso imaginar vários cenários. Sorte sua — eu não mato sem ter certeza de que o animal tirou a vida de um inocente, direta ou indiretamente.
Ela ficou surpresa:
— Credo, você vive com essa paranoia? Deve ser horrível viver sempre com medo.
O assassino tentou se justificar, sem jeito:
— Medo? Não tenho medo de nada. Sou o lendário Pato Assassino. Eles é que me temem — não eu a eles.
Ela sorriu, sincera:
— Entendo. Deixe-me contar uma história.
Era uma vez uma pequena pata que perdera a mãe ao nascer — uma gravidez de risco; a mãe escolhera salvar a filha em vez de si mesma. O pai era rígido e distante, talvez a culpasse pela perda da esposa.
Mas a pequena pata tinha um sonho: queria ser inventora. O pai sempre tentava fazê-la desistir, mas ela era insistente. Acreditava nos outros e queria ajudar, ser como a mãe, que pensara mais na filha do que em si.
Um dia, voltando da escola, encontrou um animal recém-espancado por homens de terno preto e casaca. Ela cuidou dos ferimentos dele. No dia seguinte, depois da aula, ele lhe deu um pirulito e a levou até o local onde haviam se encontrado. Quando os homens voltaram, ele a entregou a eles, dizendo que a levariam para casa.
No carro luxuoso, ela ouviu um dos homens ao telefone comentar que “o homem pagara a dívida”. Ao escutar aquilo, ficou apavorada. Levaram-na até uma casa abandonada e a trancaram numa gaiola, junto a várias outras que também continham animais. Ela chorava, tomada pelo medo. Seu erro fora tentar ser gentil… confiar demais.
Naquela noite, tiros ecoaram — e a pequena pata tremia, com lágrimas nos olhos. De repente, a porta se abriu. De lá saiu um pato que não parecia fazer parte daquele bando: vestia um sobretudo azul. Ele libertou todos os prisioneiros e, por fim, a pequena pata.
Ela, ainda assustada, sentiu um alívio profundo. Ele percebeu que ela ainda tremia e a levou até a porta de casa.
Num gesto quase tolo, buscando a atenção de seu salvador, ela perguntou se devia seguir seu sonho — mesmo com a desaprovação do pai.
O pato sorriu e respondeu:
— Sonhos não devem ser guiados pelos desejos dos outros, mas pelo seu próprio.
Ela nunca esqueceu.
Anos depois, mesmo sabendo que todos o temiam e o odiavam, ainda lembrava que ele a salvara — e que fora ele quem a incentivara a seguir seu sonho. Lágrimas lhe escorriam pelo rosto ao recordar.
Ao ouvir tudo, o Pato pôs a mão no ombro dela: — Posso não saber seu rosto; devo dizer… você já notou que sou cego, né? Mas lembro desse dia — era você, a pequena pata.
Ela o abraçou, agradecida.
Depois ele perguntou:
— Cadê seu pai?
Ela respondeu:
— Nossa fazenda vende carne. Meu pai cuida dos negócios fora da cidade; volta no começo da semana.
O Pato alongou o braço e falou:
— Entendi. Não se preocupe; sairei antes que ele volte. Se ele me vir, vai te matar — risos — afinal, sou o lendário Pato Assassino.
Ela riu:
— Com certeza ele teria um ataque cardíaco se te visse.
Em seguida, mudou a expressão, virou de costas e disse:
— Venha comigo. Enquanto você estava inconsciente, eu fiz algo que pode ajudar.
Ela entregou a bengala dele, que estava perto da porta, e o levou ao porão, cheio de objetos eletrônicos e invenções. Ele, cego, tocou nos aparelhos e ficou surpreso:
— Uau! Você faz robôs? Então esse era seu sonho. Incrível!
Ela sorriu:
— Na verdade, eu não faço apenas robôs. Crio muitas outras coisas... mas gosto mais da parte da robótica.
Em seguida, pegou um braço mecânico e o acoplou ao Pato. Ele o moveu com naturalidade, como se nunca o tivesse perdido:
— Imprecionante! Você devia realmente trabalhar nessa área.
Ela, um pouco triste, respondeu:
— Meu pai não gosta dessas coisas. Ele quer que eu continue o negócio da fazenda. Quando você me salvou eu tinha oito anos; já se passaram dez. Agora sou maior de idade, e ele me prepara para assumir a fazenda.
O Pato disse:
— Você deveria seguir seu sonho. Eu sei que é difícil sair da casa dos pais sem dinheiro. Desculpe… não posso resolver isso por você, pelo menos não agora… mesmo depois de ter me presenteado com um braço novinho em folha.
Ela negou:
— Você não me deve nada. É o mínimo pelo que fez por mim. Obrigada. — e sorriu.
O Pato tocou a cabeça e notou fios de cabelo grandes:
— Fiquei apagado por tanto tempo? Por que meu cabelo está grande? Eu o tinha raspado.
Ela, sem jeito, confessou:
— Criei um spray. Queria testá-lo — talvez fosse a cura para a calvície. Meu pai é calvo; quis mostrar que minhas invenções podem ser útil. Testei em você… e parece que funcionou.
Ele riu:
— Ok, posso me acostumar.
Eles saíram do porão e caminharam pelos currais, onde havia animais animalescos e irracionais, todos preparados para o abate.
Ela explicou:
— Houve uma guerra entre carnívoros e não carnívoros por alimento. Os carnívoros queriam carne e não se importavam em caçar os não carnívoros; estes, por sua vez, queriam deixar de ser caçados e devorados. Depois de muita morte, firmou-se um acordo cruel: as proles “falhas” — animais que nasciam animalescos e irracionais — seriam criadas nas fazendas para servir de carne. Assim “a paz” voltou.
O Pato baixou a cabeça:
— Em uma ninhada sempre vem alguém que nasce com “falha” e vira animalesco. Meu irmão era assim — animalesco no corpo, mas racional na mente, algo raro. Eu o amava; minha mãe também. Meu pai o via como aberração e quis vendê-lo. Ela se recusou; meu pai foi embora e nos abandonou... Desculpe, não queria pesar o clima.
Ela, de cabeça baixa:
— Sinto muito. Por isso não quero seguir os passos do meu pai. Se um dia tiver um filho assim, jamais o venderia; eu o amaria. Dói ver esses animais sendo abatidos.
Na manhã seguinte, ouvindo o rádio, o Pato escutou que sua morte fora anunciada. Levantou-se:
— Preciso voltar. O momento está chegando; certamente os grandes vão festejar minha morte num único local. É minha oportunidade de finalmente acabar com os peixes grandes.
Ela ofereceu:
— A fazenda é longe; posso levá-lo na minha caminhonete.
Ele balançou a cabeça:
— Não quero te colocar em risco. Se suspeitarem que me ajudou, destruirão você. Se tiver ônibus, eu pego.
Ela explicou que ônibus não passavam no fim de semana, mas teve uma ideia melhor: uma moto no celeiro. Perguntou se ele sabia pilotar.
Ele coçou a cabeça:
— Sei dirigir qualquer veículo… o problema é que sou cego.
Ela ficou admirada:
— Mesmo cego, você parece perceber mais que os outros. Talvez consiga pilotar essa moto.
Ele explicou:
— Provavelmente não. Não vejo nada, mas meus outros sentidos são aguçados. Uso a bengala; cada batida que dou no chão me permite “ver” ondas sonoras que se propagam pelo local. Com o som, enxergo o ambiente — mas em veículos não há como utilizá-la.
Ela entendeu e instalou rapidamente um pedaço de madeira com uma borracha especial embaixo da moto, que gerava batidas no chão a cada segundo, criando as ondas sonoras sensoriais necessárias.
Ele testou a moto e pilotou sem bater em nada:
— Você é realmente uma das pessoas mais incríveis que já conheci.
Ela ficou sem jeito:
— Você me elogia demais; não estou acostumada. Obrigada.
— Quanto quer pela moto? — perguntou ele.
— Pode ficar com ela. Meu pai ia jogá-la fora; eu a consertei para agradá-lo, mas com certeza ele ficaria desapontado ao saber que continuo fazendo isso. Leve.
Ela também lhe deu um óculos semelhante ao seu anterior, que havia quebrado — porém menor — e disse:
— Por favor, não morra.
Ele sorriu, ligou a moto e acendeu o cigarro:
— Se a explosão não me matou, nada mais me mata. Até eu eliminar aqueles lixos, não terei permissão para morrer.
E não vou esquecer o que você fez por mim. Eu sempre pago minhas dívidas.
Partiu para a cidade; o celular que ela consertara guiava a rota.
Mais tarde, a caminho da emissora, Ellen — a raposa assistente — estava no banco da frente, enquanto Gustavo, o gato detetive, dirigia.
Fernando, o tucano jornalista, sentava-se no banco de trás, observando tudo em silêncio.
Desde a notícia da morte do Pato, Ellen parecia abatida — o olhar vazio, a expressão triste e o corpo entregue à melancolia.
Gustavo, mantendo os olhos fixos na estrada, quebrou o silêncio:
— Não posso dizer que estou triste pela morte dele… mas não gosto de te ver assim.
Se serve de consolo, de certa forma vamos vingar o Pato — expondo toda a informação que ele nos passou antes de partir.
Fernando então comentou, com um tom de curiosidade e leve desconfiança:
— Devo admitir, fiquei surpreso com tudo o que você me contou sobre a lenda do maior assassino.
Só não esperava que você tivesse trabalhado para ele… a polícia nunca suspeitou que você fosse a informante?
Ellen levantou a cabeça, respirou fundo e respondeu, com a voz pesada:
— Eles suspeitavam que alguém dentro da corporação passava informações.
Vários animais que trabalhavam na delegacia simplesmente desapareciam, e, quando perguntavam sobre eles, o chefe dizia que tinham sido transferidos para outra cidade.
Ela fez uma pausa, o olhar distante, como se revivesse cada lembrança dolorosa.
Depois continuou, num tom mais firme, porém amargo:
— Mas, ao investigar, descobri a verdade. Eles matavam os suspeitos e suas famílias — mesmo sabendo que eram inocentes.
Tudo por causa das torturas durante os interrogatórios.
Quando percebiam que tinham torturado o animal errado, preferiam matá-lo para garantir que ninguém soubesse o que realmente aconteceu.
Ellen abaixou a cabeça, a voz trêmula e embargada pela culpa:
— Minha cabeça dói só de pensar que todas essas mortes estão nas minhas mãos...
A maioria dos suspeitos era de animais bons, honestos… não corruptos.
O silêncio tomou conta do carro.
Nenhum deles encontrou palavras que pudessem aliviar o peso daquela confissão.
A tensão pairava no ar, densa e sufocante, até que, finalmente, chegaram à emissora.
Alguns minutos depois, na festa dos poderosos — organizada para celebrar a morte do Pato Assassino —, após tudo ter sido exposto nas telas, alguns convidados cochichavam entre si:
— Isso está muito estranho. Como conseguiram transmitir toda essa informação de forma tão abrangente? E, além disso, como acessaram e roubaram esses arquivos?
— Com certeza foi obra do Pato Assassino; seu “último presente” para nós. Até morto esse verme dá trabalho. E tem dedo do maldito hacker que trabalhava pra ele.
— Será que isso vira um problema?
— Não se preocupem — riram alguns —. A maior parte do povo, dividida em lados opostos, acredita mais em nós do que nas provas. Eles passam pano para tudo que fazemos. Além do mais, Davi vai resolver tudo, como sempre: um grande exemplo de liderança.
De repente as luzes começaram a piscar, apagando e acendendo, até que o escuro dominou o salão. O choque tomou conta dos presentes. Ouviam-se tiros; o pânico se instalou e todos correram para as saídas — mas a porta estava trancada. O desespero cresceu, até que a luz voltou a iluminar o ambiente. Então viram: todos os seguranças estavam mortos. No palco estava o pior pesadelo deles — aquele que “voltou dos mortos”. O medo se espalhou.
Um convidado, incrédulo, falou, negando o óbvio:
— Impossível! Deve ser uma encenação, uma apresentação para nos entreter. Com certeza os seguranças não estão mortos de verdade. O senhor Davi adora nos impressionar — (risos nervosos).
Num segundo, o Pato atirou na perna do homem que falara. O pânico explodiu: tudo era real — a lenda havia retornado. Alguns presentes gritavam:
— Como ainda está vivo?
— Por favor, não me mate! Faço tudo que quiser!
— Todos têm um preço. Quanto quer para poupar minha vida?
— Se você nos matar, nada mudará e tudo ficará ainda mais difícil para você.
— Por que faz isso? Por que nos persegue? Pense: você poderia trabalhar para nós, não seria mais perseguido. O que acha?
O Pato bateu a bengala três vezes no chão do palco; o som ecoou por todo o salão. Todos calaram-se, tomados pelo medo. Ele falou, com voz cortante:
— Vocês manipulam, enganam e destroem... prejudicam a vida de todos... e agora temem a morte. Achavam que todas as barbaridades que faziam não teriam consequências? Pois deixem-me dizer: vocês me criaram. Transformaram-me nisso. Sou a mais pura vingança, o mais puro ódio — a resposta contra o sistema. Sou a consequência dos seus atos!
Então perguntou, seco:
— Quem é o líder? Quem manda em tudo? Quem é o cabeça por trás de tudo? Se me contarem, posso poupar a vida de vocês.
Por um instante muitos se apegaram à esperança; outros calaram-se por medo — temiam mais a ira de Davi do que a do Pato —, mas os mais covardes gritavam sem pensar:
— Davi!
— Davi, o governador — o Leão Dourado — é o líder por trás de tudo. Ele controla tudo!
— Por favor, nos poupe! Contaremos o que quiser.
— Seja misericordioso. Cumpra sua palavra.
Eles disseram que Davi havia ido “resolver o problema da transmissão”. Imploraram. Então, contra todas as expectativas, o Pato abriu fogo: atingiu pernas e braços de vários presentes, em alta velocidade, trocando de arma assim que descarregavam. Todos agonizavam de dor, sem entender — ele havia prometido poupá-los caso contassem quem mandava em tudo.
O Pato passou entre os corpos caídos e, frio, falou:
— Nunca confiem nas palavras de um criminoso, a não ser que tenham a vida dele — ou de alguém que ele ame — na palma da mão. Além do mais, eu cumpri o que disse: poupei a vida de vocês. Não serei eu que os matarei; será algo "acidental". (risos frios)
Pegou um controle e apertou um botão. Em um segundo, celulares e telefones explodiram.
O Pato destrancou a porta, saiu e trancou-a novamente pelo lado de fora.
Logo, um incêndio começou no salão. Gritos de desespero ecoavam lá dentro, mas do lado de fora ninguém ouvia — o local era à prova de som.
Ele havia planejado tudo com precisão: incendiara pontos estratégicos da cidade para manter os bombeiros ocupados, e quando soubessem do incêndio, já seria tarde demais.
Com a população nas ruas, chocada pelas provas exibidas nas telas, ninguém perceberia o fogo consumindo o salão — nem teria tempo de salvá-los.
Caminhou até a moto, com o local atrás dele em chamas, acendeu um cigarro, montou e pilotou sem arrependimentos — seu dever quase concluído; faltava apenas uma última engrenagem para fazer a máquina quebrar. Ellen carregava um rastreador; ele sabia onde encontrá-la.
Logo depois, ao chegar à torre da TV G, entrou por um estreito duto de ventilação nos fundos, já que a entrada principal estava tomada por policiais.
Ao se infiltrar no prédio, ouviu disparos ecoando pelos corredores dos andares superiores.
Sem perder tempo, espalhou diversos dispositivos de gás do sono pelos níveis inferiores — uma precaução, caso a polícia tentasse avançar.
Em seguida, correu em direção ao som dos tiros.
Depois de derrotar Davi — amputando-lhe braços e pernas com balas especiais — o Pato começou a torturá-lo, arrancando-lhe os olhos. Antes de continuar, porém, perguntou:
— Quero entender: você é um ser aprimorado, como meu irmão... Mas seres aprimorados são apenas armas — ninguém da elite se sujeitaria a um experimento tão arriscado. Então é melhor me contar, ou a tortura ficará ainda pior. (risos malignos)
Davi, sem escolha e sentindo dor insuportável, falou:
— Nasci numa família influente do mercado de bebidas alcoólicas, mas meu pai era um peão nas mãos do crime organizado. Eles trabalhavam juntos. Certa vez, meu velho se recusou a obedecer à ordem de colocar metanol nas bebidas para manter o preço baixo durante a crise econômica. Você sabe o que acontece quando se desobedece o sistema... O que fizeram com minha mãe foi horrível — ele parou, ofegante — depois da tortura, colocaram meu pai num aquário cheio de tubarões animalescos. Nunca vou esquecer aquela cena dilacerante.
O chefe me criou como parte da engrenagem; cortou minha cauda e me ensinou que a dor fazia parte da confiança e da lealdade. Usava minha cauda como um colar para me lembrar onde pertenço. Queria que eu assumisse o lugar do meu pai, mas não só assumi como usei tudo o que ele me ensinou e o destronei. Tornei-me o novo chefe do crime organizado, controlando o mercado negro e, por consequência, todo o sistema. Gostei do que fiz com ele... mas, no fundo, admirava a maneira como ele controlava tudo; era quase encantador.
Entendi o sistema, fui moldado por ele e me tornei parte central dele. Você seguiu o caminho oposto, preso a uma vingança inútil; por isso me saí tão bem manipulando tudo, mantendo todos sob minhas garras. Mas percebi que, para ser rei, não basta ter influência — é preciso ser o mais forte, até fisicamente. Por isso me submeti aos experimentos para me tornar um ser aprimorado; queria o ápice do poder, na influência e no corpo. Consegui ambos.
Você foi minha única "falha". Seu irmão era a maior arma que criamos, mas nunca despertou todo o potencial latente. Teria sido a arma perfeita para nos tornar a maior potência do planeta... então você o tirou de nós. Eu devia tê-lo matado quando você era apenas nosso escravo. Esse foi o meu maior erro — e a minha ruína.
Ao terminar, o Pato falou de forma sarcástica:
— Você não precisava me dar um contexto tão longo para uma resposta tão curta. Eu sei que você está tentando ganhar tempo para que algum milagre aconteça, para que alguém te salve. Mas, para você, não existe salvador.
Ele falou firme:
— A única coisa que existe é a consequência!
Logo em seguida, o Pato agarrou a língua de Davi e a cortou, prosseguindo com a tortura.
No terraço do prédio abandonado:
Ellen cobriu o corpo sem vida de Fernando com um lençol. Olhou para o Pato, observando o caos lá embaixo, e disse com convicção:
— Não pensei que isso fosse acontecer... Talvez seja necessário um símbolo de medo e vingança. Com certeza é o que precisamos. O caos e o terror são necessários.
Pelo que você me contou, farão um grande velório com todos os que você matou. Podemos usar essa ocasião para expor a verdade sobre o seu retorno. O povo pensa que você é apenas um assassino cruel, que mata a torto e a direito — mostraremos que você só mata criminosos; isso dará ainda mais razão à verdade que expusemos hoje.
Os criminosos voltarão a sentir pavor; qualquer um que pensar em seguir esse caminho saberá qual será seu destino. O medo é a única forma de equilibrar as coisas.
O Pato acendeu um cigarro e tragou, dizendo:
— Você não está pensando com clareza. Podemos acabar criando monstros ainda piores do que aqueles que combatemos. Prefiro ser visto como um monstro por todos do que me tornar um símbolo que, por consequência, inspirará outros a seguir por um caminho sem volta — uma cruzada cuja única saída é a própria morte.
Eles não entenderiam isso; seguiriam a idolatria por mais um ídolo, corromperiam a luta e deixariam o poder apodrecer tudo novamente.
Não existe poder — ou responsabilidade — maior do que decidir quem vive e quem morre. Brincar de Deus é um caminho sem perdão… e sem retorno.
Não busco ser amado, como numa seita, por fanáticos que acreditam que faço o certo. Sei que o que faço é errado — e sempre será. Ainda assim ajo dessa forma porque a justiça deste mundo falha — ou pior: ela não existe.
Nunca matei um inocente; jamais tirei a vida de alguém que não tivesse destruído ou prejudicado de forma irreversível a vida de outro. Sei manter o controle, impedir que o que faço me transforme em um monstro completo — mas você acha que outros, inspirados pela minha história, seguiriam o mesmo caminho e seriam iguais a mim? Não seriam.
Os animais ainda não sabem que voltei; uma hora vão descobrir. Certamente os poderosos tentaram impedir que a informação vazasse. Mas, quando descobrirem... deixem que me vejam apenas como o criminoso — o monstro — que sou.
Ele jogou o cigarro no chão e o apagou com o pé, olhando para baixo.
— No fim, a única forma de combater o sistema é nas sombras, sendo odiado por todos. Assim repelimos a idolatria e impedimos que novos monstros surjam. Este é o único caminho do medo e da vingança que, de fato, funciona.
Ellen entendeu as palavras do Pato; sabia que ele tinha razão, mesmo desejando uma solução rápida — e sabendo que a luta seria eterna.
De repente Gustavo, o gato detetive, começou a recobrar a consciência. O Pato falou:
— Vou distrair o detetive; é melhor você ir. Não acho que ele seja confiável. Tudo que você me contou sobre ele me faz pensar que é o tipo de animal que segue sempre o caminho "certo". Ele não pensará duas vezes antes de te entregar, já que você cumpriu seu papel.
Gustavo aproximou-se da platibanda e viu todo aquele caos. O Pato subiu e passou a conversar com ele. Ellen colocou os óculos escuros, olhou mais uma vez para o corpo de Fernando e foi embora, com lágrimas escorrendo pelos olhos.
No dia do grande velório, para todas aquelas figuras de poder que morreram, muitos animais estavam presentes, prestando condolências.
A mídia noticiou que um grupo revoltado com a "farsa" exibida naquele dia era o responsável, e ainda afirmou que o autor de tudo aquilo fora um funcionário da TV G. Ao expor a mentira, esse funcionário teria matado todos os que estavam no edifício e, logo depois, tirado a própria vida. O motivo? Simples: era um lunático, um teórico da conspiração.
A imprensa manipulava a verdade, moldando os fatos para favorecer a narrativa do sistema, que precisava se reconstruir após perder suas principais figuras de comando. Além disso, os jornais e noticiários ocultavam tanto a volta do Pato Assassino quanto o envolvimento do hacker, cuja identidade era desconhecida.
Se a população descobrisse a habilidade desse hacker, começariam a questionar a veracidade do material que fora divulgado — e poderiam ligar tudo ao Pato, já que as provas vieram à tona no exato dia em que sua morte foi noticiada.
E, se soubessem que o Pato estava vivo e fora o autor daquela ação, o pânico, o medo e, principalmente, o questionamento se espalhariam pela nação. Isso representava um problema enorme para o sistema: mesmo sabendo que grande parte do povo aceitava tudo por fanatismo e idolatria, eles não podiam arriscar. Não havia como prever até que ponto os animais manteriam a obediência cega diante de tais revelações.
A pata ouviu tudo pela TV. Mesmo com a mídia ocultando a verdade, ela sabia que tinha sido ele.
Ela entendia a escolha do Pato, mas temia por ele. Sabia que aquele caminho só levava ao sofrimento e a uma morte certa.
Ao descer para o porão, deparou-se com um saco cheio de dinheiro. Havia um bilhete.
“Com esse dinheiro, você pode seguir seu sonho. Digamos que estou pagando pelo braço, pela moto… e, mais uma vez, obrigado.”
A pata sorriu, e uma lágrima escorreu pelo seu olho.
No dia seguinte, no último andar de um prédio luxuoso, encontrava-se o chefe do departamento de sites de apostas e cassinos online. De repente, sua assistente entrou apressada, informando que alguém de outro país havia vindo visitá-lo — alguém muito influente. Ele mandou que o deixassem entrar.
A porta se abriu, revelando um homem alto: uma águia humanoide de plumagem negra, com uma cicatriz profunda sobre o olho esquerdo — um olho sem pupila. Vestia terno preto impecável, sobretudo escuro e uma cartola que reforçava sua imponência. Sentou-se na poltrona com postura firme e olhar frio.
O chefe do departamento — um pica-pau humanoide baixo e de fala nervosa — ficou visivelmente surpreso. Depois de alguns segundos, tentou disfarçar o desconforto e perguntou:
— O que traz aqui o chefe do crime organizado da maior potência militar?
O estrangeiro respondeu:
— Léo, devo parabenizá-lo pela sua criação. Mesmo tendo cassinos no meu país, o mercado online é ainda melhor; sem falar nas casas de aposta, que fazem sucesso mundo afora. Meus parabéns. — Tirou a cartola e continuou: — Mas devo dizer que a morte de Davi me surpreendeu. Ele era ótimo para os negócios. Agora que as figuras de comando se foram, o sistema está dividido: uns clamam pela sua liderança, outros pela de Samuel. Quem sairá vencedor dessa disputa pelo trono? — (risos). — Posso ajudá-lo. Está interessado?
Léo engoliu em seco e respondeu:
— Sim. Estou interessado, mas seus favores sempre vêm com um preço muito alto.
O estrangeiro sorriu:
— Talvez você tenha razão. Quero parte das suas riquezas florestais; em troca, entrego-lhe a cabeça do hacker e, por consequência, a do Pato — como brinde. Se recusar, aumentarei as taxas sobre seu país. O que me diz?
Em outro ponto da cidade, numa fábrica abandonada, Samuel, o mico-leão, remexia arquivos quando um homem gordo — um panda humanoide de terno vermelho e sobretudo branco — chegou acompanhado por dois tigres humanoides com terno e sobretudo negro. Tirou o chapéu e falou:
— Há quanto tempo, Samuel.
Samuel assustou-se ao ver o chefe do crime organizado da segunda maior potência e gaguejou:
— O que faz aqui? Como... como me achou?
O panda sorriu, recolocou o chapéu e disse:
— Muito bem. Vamos ao acordo. Sei como as coisas andam por aqui. Ajudarei a eliminar seu rival e aquele “problema”; em troca, quero mais desconto nos suprimentos que compro de seus fornecedores.
Samuel retrucou:
— Desconto? Isso é inviável! O pessoal do setor agro conspirará contra mim.
O panda sorriu novamente:
— Você que sabe. Mas, segundo meus informantes, ele procurou Léo e propôs um acordo. Agora só lhe resta a mim. O que me diz?
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